quarta-feira, abril 26, 2023

Na Índia, as famílias são diferentes

 por Santha Rama Raul

Artigo originalmente publicado na revista "Seleções" de outubro de 1965

Inúmeras vezes, durante os anos que já passei longe da Índia, tenho ouvido a grata pergunta: "Como vai a família?" Ela faz-me ver que é virtualmente impossível traduzi-la para o meu idioma nativo, o hindi. Na Índia, assim se formularia a pergunta: “Estão todos bem em sua casa?”

A questão é que, na Índia, quase nunca usamos a palavra "família" no sentido, talvez, de apenas o marido, a esposa e os filhos. Na Índia, uma família significa algo muito mais íntimo que um clã, abrangendo numerosos parentes próximos e distantes. Na vida familiar indiana, com todas as suas diversas relações, aprendemos a tomar-nos parte integrante do mundo que nos cerca.

Certa vez citei para um amigo ocidental um provérbio indiano muito conhecido: "A ambição de toda moça hindu é ser sogra." Meu amigo mostrou-se admirado: "Por que ser sogra?", indagou-me.

Não importa que direitos a sociedade negue à mulher hindu; nos complexos e absorventes domínios do seu lar ela é suprema. Com o marido e a mulher freqüentemente vivem todos os filhos do casal e suas noras, todos os netos, e ainda, possivelmente, se os netos varões tiverem idade bastante para o casamento, todos os bisnetos. A mulher mais idosa da casa, a sogra, dirige esse império - que dela exige toda a habilidade, todo o tato e capacidade administrativa.

Além dos membros da família propriamente ditos, haverá também os parentes afastados que, por esta ou aquela razão, adquirem o direito de pertencer a essa vasta organização familiar - um primo viúvo, um tio que não constituiu família ou uma tia solteira. Parentes que vivam perto ou longe tem o direito de vir em "visita" e passar em nossa casa uma semana, seis meses ou o resto da vida, sem que ninguém questione sua presença. Afinal de contas, para que serve a família?

Da casa de minha avó, lembro-me de um primo idoso que nos visitava diariamente. Ele vinha à nossa casa não para gozar da nossa companhia, mas por ser avarento demais para comprar o seu próprio jornal. Às seis da tarde, todos os dias, colocava-se uma cadeira para ele no jardim, tendo sobre o assento o nosso jornal, com uma pedra em cima, para impedir que a crescente brisa vespertina o desfolhasse!

Ele chegava, sentava-se confortavelmente, deleitava-se com o maravilhoso colorido dos crepúsculos indianos, lia o jornal, depois ia embora. Muitas vezes não chegava a trocar uma única palavra com qualquer pessoa da casa. E por que precisaria fazê-lo? Na concepção dos indianos, o horizonte de uma família deve ser o mais amplo possível.

Nenhuma pessoa da família, sobretudo sendo um dos seus membros mais idosos, é jamais relegada ao montão das coisas imprestáveis. Todos continuam sempre sendo queridos e respeitados no ambiente familiar.

A primeira vez que eu regressei à Índia, após ter passado quatro anos estudando numa universidade norte-americana, minha família ardia em curiosidade de saber das minhas exóticas aventuras naquele "novo" país, os Estados Unidos da América. A pergunta que me despertou maior surpresa foi a que me fez uma parenta muito idosa, uma senhora já meio surda e quase cega.

- Diga-me uma coisa - disse ela - é mesmo verdade que na América há senhoras idosas que vivem sós?

- É - confirmei. - Nem sempre há espaço para os velhos na casa de um casal jovem.

- Oh - exclamou ela - que tristeza!

Mas os velhos quase sempre preferem ter o seu próprio canto - expliquei.

- Eu não estava me referindo aos velhos, - atalhou ela, com viva impaciência. - Eu imagino como deve ser triste para os moços.

Não admira, pois, que não exista na Índia um vocábulo que verdadeiramente corresponda à palavra "família' , no sentido restrito que ela tem para os ocidentais. Em toda família asiática não há só espaço, sente-se mesmo a necessidade de todas essas múltiplas relações e das suas diversas contribuições para a vida familiar. A vida familiar indiana envolve a consideração de um mundo de pessoas que poderão não ser do agrado de todos os componentes da casa - as quais, não obstante isso, merecem igual consideração.

- Como, num meio assim tão cheio de gente, pode haver lugar para o recolhimento, para as manifestações de preferência, gosto ou talento individuais? A explicação está na arte peculiarmente indiana de "viver reservadamente em convivência".

Na Índia, a necessidade de refrescar a mente na solidão, de refazer-se do que já se qualificou de "cansaço de convivência", de reabastecer-se de reservas interiores de energia e interesse pela vida é perfeitamente compreendida e profundamente respeitada. Suponhamos que uma das mulheres mais jovens numa casa de "famílias conjuntas" desejasse dispor de algum tempo para si mesma, livre das incessantes exigências dos seus familiares e dos trabalhos caseiros. Bastaria manifestar o desejo de ter um tempo para meditar - digamos uma hora, um dia, ou mesmo um período mais longo - certa de que a sua pretensão, talvez um tanto extravagante no Ocidente, seria satisfeita sem surpresa. Outras pessoas assumiriam as suas tarefas, esperando unicamente que ela um dia lhes retribuísse o gesto da mesma maneira.

A importância da vida contemplativa e do equilíbrio interior é uma constante na tessitura da vida indiana. Mahatma Ghandi costumava reservar todas as segundas-feiras para seu “dia de silêncio”, em que o seu pensamento não sofria a interrupção nem da sua própria voz nem de vozes estranhas. Conheço comerciantes diligentes que passam regularmente uma hora após a sua volta do trabalho praticando ioga em casa e meditando - hábito que não provoca espanto em seus parentes ou amigos, nem mesmo em seus sócios.

Se a "intimidade em público" constitui qualidade a que se deve dar valor, igualmente a urgente necessidade de conviver harmoniosamente com uma série de pessoas diferentes que nos são impostas pelas circunstâncias de nossa vida familiar. Nem mesmo o esposo e esposa hindus escolhem um ao outro; eles são colocados numa situação engendrada pelos mais velhos e só lhes cabe aceitá-la com todas as suas implicações de intimidade que lhes são inerentes. A vida indiana tem várias maneiras de enfrentar as exacerbações da existência cotidiana, que os ocidentais poderiam considerar com proveito, pois o problema não é exclusivamente da Índia. Todos nós passamos parte do dia com pessoas que, na realidade, não nos agradam : patrões , companheiros de trabalho, professores, colegas de estudo, a balconista da casa em que fizemos uma compra, os passageiros do trem ou ônibus em que viajamos, até mesmo os nosso vizinhos.

Teoricamente, a pessoa formada na família indiana sabe que deve utilizar todas as relações humanas que disponha - e não apenas as que sejam da sua preferência – para enriquecer , e não para empobrecer a vida; para ampliar, e não para reduzir a sua visão do mundo e do lugar que nele ocupa. Noutras palavras: o meio de suportar relações que nos são impostas é aproveitá-las para recarregar nossa própria vida.

- Como se consegue isso ? Vou dar algumas sugestões . Voltamos à "sogra" que está à frente de uma família indiana do tipo ortodoxo. Ela deve ser árbitro nas disputas, consoladora na tristeza, confidente, guia nos evitáveis problemas da existência comunitária, fonte de energia espiritual, mantenedora dos valores éticos. Pois ela alimenta o próprio espírito em todas essas relações, retirando das pessoas com as quais convive o que estas lhe possam oferecer espiritualmente, emotivamente, como criaturas humanas. Isto só se consegue à base de um senso de respeito às pessoas - não só às jovens mas também às velhas; não apenas pelo sentimento de gratidão que se deve aos pais , porém atribuindo à presença dessas pessoas um verdadeiro valor e reconhecendo que todas elas podem contribuir para a vida daqueles que as cercam.

Uma idosa e querida tia, a quem um dia expus um problema de ordem pessoal, respondeu-me tranquilamente: "Meu filho, faça apenas uma pergunta: quem manda afinal, os seus desejos, ou você mesmo?" . Tenho muitas vezes refletido sobre esta resposta, valendo-me dela para orientar-me, e com disso me alegro pelo fato de minha casa ter sido suficientemente grande para abrigá-la.

Uma família indiana se enriquece ainda pelo fato de o agrupamento das pessoas pela sua idade ser muito menos comum do que no Ocidente.

Já vi muita criança brincando em bandos - e ao mesmo tempo cuidando de recém-nascidos de sua família. As crianças maiores não se envergonham de terem de zelar pelas menores. Adultos ainda jovens não esperam associar-se principalmente com pessoas da sua idade. Promover umas festa importa em convidar automaticamente pessoas de todas as idades.

Num espetáculo teatral que se realize em qualquer vilarejo indiano, para apresentação dos grandes episódios da literatura épica tradicional, um marido e sua esposa irão com os filhos levando ao colo os que ainda não saibam andar, e providenciarão para que os velhos tenham bastões para se arrimarem pelo caminho, exigindo a presença dos adolescentes cépticos, para cujo paladar os clássicos talvez sejam demasiado maçantes, destarte fazendo da diversão noturna motivo para uma verdadeira "reunião de família".

Conviver assim com tantas pessoas não conduz à uniformidade, e sim à diversidade, pois cada um reflete preciosamente as múltiplas combinações das diversas personalidades com que priva. Em todas as várias manifestações da vida familiar - a reserva individual, o sentimento de coletividade e o direito à uma visão pessoal do mundo - a Índia, um país pobre, mostra-nos o segredo de uma rica existência. Porque; como disse o naturalista - filósofo Henry David Thoreau, que foi muito influenciado pela Índia: "A única riqueza é a vida."


segunda-feira, dezembro 06, 2021

MENSAGEM DE NATAL - 2021


Vão-se passando as vírgulas do tempo, e cada vez mais parece ficar difícil para eu escrever uma mensagem de Natal.

Não reputo essa dificuldade a nada fora de mim, mas às minhas próprias limitações, que parecem se destacar com a idade, e a pacificação do animal que me habita.
Talvez, aliado a isso, o prelúdio de uma nova era, um Apocalipse próximo, ou o fim do Kali Yuga, dá-me conta da possível inutilidade de escrever uma mensagem tal como esta.
Melhor seria ficar imerso na minha solidão interior, e esperar que a luminosidade do Cristo possa perdoar meus pecados? Provavelmente o silêncio sussurrará sua resposta ao meu coração.
Contudo, expressando a partir daquele ensimesmado em meu cubículo interno, esta é única data natalícia crucificada no tempo. A tragédia do Gólgota permeia a luminosidade da Estrela do Oriente, juntando Alfa e Ômega da vida dEste a quem não sou digno de beijar seus pés, mas que ao mesmo tempo me abraça e me eleva e me diz: “O Reino de Deus está dentro de vós”.
Belém marca meus passos desde o nascimento e, com certeza, marcará meu último suspiro nesse lapso de eternidade ao qual chamei vida, mas que no fundo é apenas uma flor adornando minha memória.
E Este, cuja lembrança do nascimento cultuamos e comemoramos em dezembro, é o fruto maduro da Luz Superior, cuja semente nasceu, cresceu, tornou-se uma árvore, e em cuja sombra hoje nos guardamos quando nos dessedentamos em nossa jornada.
Portanto, sublinhando nossa essência, presente da própria Divindade, habitando neste crepúsculo de Era o nosso cerne, fazendo-nos refletir tanto sobre a inutilidade da vaidade, quanto sobre a vida interior que nos alimenta e ilumina, é que surgem essas palavras de gratidão.
Amo estar vivo. Mas a presença da Divindade é que é o verdadeiro tesouro: com Deus, apenas me importa ser o cálice vazio e iluminado, penetrado por Sua Graça.
Que este Natal extraordinariamente tocado pela natureza das circunstâncias, mas cheio de esperança para os próximos tempos, seja o esteio da felicidade e harmonia para você que me lê.
E que o menino Jesus, o Cristo, o verdadeiro Messias, possa encontrar morada em mim, em ti, em todos nós, como se fôssemos verdadeiras manjedouras vivas.
Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!



domingo, dezembro 06, 2020

QUEM SOU EU?

 Numa primeira vista lançada sobre o assunto, talvez seja essa uma pergunta que não tenha resposta, ou uma pergunta feita para que esta não haja: a pergunta funcionaria como um koan. Talvez, também, todas as elucubrações sobre o tema, toda a história da filosofia, não são mais que tergiversações para indicar ao homem algum caminho, alguma conformação ao coração daquele que tem um destino inexorável pela frente. Contudo, se a pergunta está lançada, quem seria eu para não enfrentá-la?

Será necessário, no meu ponto de vista, reestruturar a pergunta e começar a me perguntar algumas obviedades, como por exemplo, quem eu não sou. E um psicanalista, ou psicólogo, ou psiquiatra poderá observar minhas palavras e indicar-me a fazer um tratamento sério e profundo, quem sabe até num sanatório. 

Contudo, já estou internado neste mundo e navegando nele agradecendo à vida e à oportunidade de estar vivo. E neste caso, quanto mais as horas se acumulam e se esboroam diante de mim, mais tenho claro que eu não sou aquilo que pensam de mim. Que eu não sou a imagem que me fiz. Que eu não sou a educação que me deram. Que eu não sou aquele que me olha desde o espelho, de uma forma invertida.

Tampouco não sou o corpo. Este corpo virará pó em alguns anos, e depois de 10 trilhões de anos não haverá nem sequer a mínima menção a alguém, nem talvez existam corpos. E talvez nem o existir seja um fato. Talvez nem... Somente um ponto, que não tem existência real neste mundo, serviria para descrever algo após dez trilhões de anos.

Se não sou um corpo, apesar de ser um homem heterossexual, não sou também um homem na acepção limitada da palavra, o macho itinerante que busca seu lugar no mundo. Porque este macho também virará pó, e será enterrado, ou eliminado pela cremação e, de toda forma, virará pó que alimentará os vermes, as plantas, e retornará ao ciclo da existência natural, servindo, talvez, de suporte a outros seres.

Não sou o pai, o marido, o filho. Neste imenso palco, tudo isso que anotei até agora não são nada mais que papéis representados por este simples inseto que olha estupefato para a mansidão do universo. Lembro-me de um livro de Yasunari Kawabata, onde o personagem principal, no final do romance "O País das Neves", arrebatado pela tragédia que o abatera, olha para a via-láctea, e esta adentra a si mesmo, numa epifania. Desde os dezesseis anos, minha vida é esta epifania.

Sabedor disso, não posso ser o servidor público: também seria um papel. Tampouco posso ser o eleitor, ou ser o consumidor (palavra que para mim é abjeta, onde se reduz todos os seres humanos a apenas um pífio aspecto da sua vida). No fundo, nada disso me identifica, apesar que, sendo um o ator secundário desta complexa história, ainda assim exerço meu papel como um cidadao comum, seguindo, externamente os paradigmas impostos, enquanto que por dentro busco algo mais que os papéis impositivos da sociedade. Se o imperador Augusto, o homem mais importante do Império Romano, considerava-se um ator, a ponto de dizer como últimas palavras "Eu desempenhei bem meu papel? Então aplaudam quando eu morrer", quem seria eu para dizer-me autor da minha própria peça?

Lembro-me bem das palavras que disse ao meu pai, com dezoito anos, antes de sair de casa: 

"Pai, eu me sinto como um náufrago. Minha vida neste momento não tem sentido. Tenho que deixar essa vida, porque eu vejo uma praia, e se eu não nadar até ela eu vou morrer". Naquela época, saí de casa, e tive experiências que me marcaram: fui morador de rua, lavrador, repórter político. Em suma, encontrei-me com a realidade da existência e suas agruras de ter que pedir esmola, comida, de carregar cana nas costas, de enfrentar os ofídios no meio da floresta amazônica, de ouvir os rugidos das onças quando ia dormir, etc.

No final das contas, eu não sou nada, apenas instrumento. É vaidade minha pensar em ser o autor, e não o ator. O palco estava aqui antes de minha chegada, e continuará depois. A peça já havia começado e continuará sem mim. 

Pois bem, a pergunta a ser respondida está próxima de sua solução. Afinal, quem sou eu? 

Não há palavras a dizer, não há gramática ou semântica para explicar o mistério. Esta palavra, mistério, que provém do verbo grego "mu", que quer dizer "silenciar", de onde vêm as palavras "místico", "mudo", esta palavra em si mesma é silêncio, e pronunciar o que significa traz à tona uma contradição intraduzível. Apenas respiro, fecho os olhos, feneço o diálogo interno, e espero.

Pois bem, me arrisco então com algo que percebi quando tinha vinte e quatro anos: eu sou a testemunha. Testemunho meu papel. Testemunho minha vida. Testemunho cada respiração. Testemunho cada momento de amor. Testemunho que, ao servir o próximo, ele não é mais o "próximo", mas eu mesmo. Testemunho que quando agradeço, na realidade agradeço a esta túnica inconsútil que tenho a oportunidade de vestir, e agradeço à vida, e agradeço a Deus.

Eu sou a testemunha. Meu corpo e minha consciência é a máscara, a persona, que é manejada pelo personagem supraconsciente (aquele que age por trás da máscara). Quando estiver como uma flauta vazia, tocarei a melodia harmonicamente. E, quem sabe, chegarei ao ponto do que se diz no "Ken Upanishad":


"Pelos desejos de quem, impelida por quem, arde a mente por seus objetos?
Impelido por quem, realiza o prana —a força vital— sua função?
Impelidos por quem falam os homens?
Que Deva, que deus, dirige os olhos e os ouvidos?"

"O Atman é o ouvido do ouvido, a mente da mente, a fala, da fala, o prana do prana, o olho do olho.

Os sábios, ao separarem o Atman das funções sensoriais, elevam-se acima da vida dos sentidos e alcançam a imortalidade."

sexta-feira, novembro 06, 2020

INICIAÇÃO (Fernando Pessoa)

Não dormes sob os ciprestes,

Pois não há sono no mundo.

......

O corpo é a sombra das vestes

Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte

E a sombra acabou sem ser.

Vais na noite só recorte,

Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro

Tiram-te os Anjos a capa.

Segues sem capa no ombro,

Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada

Despem-te e deixam-te nu.

Não tens vestes, não tens nada:

Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,

Os Deuses despem-te mais.

Teu corpo cessa, alma externa,

Mas vês que são teus iguais.

......

A sombra das tuas vestes

Ficou entre nós na Sorte.

Não estás morto, entre ciprestes.

......

Neófito, não há morte.


(Dedico este poema à memória de meu amado amigo e irmão, Carlos José Feital, que foi ao Oriente Eterno na data de hoje, 06 de novembro de 2020)

segunda-feira, abril 16, 2018

NENHUM HOMEM É UMA ILHA... (o que é a felicidade?)



“nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de
um continente; se um simples pedaço de terra é levado
pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte
de cada ser humano me diminui, porque
sou parte da humanidade. Portanto,
não me pergunte por quem
os sinos dobram:
eles dobram
por ti.”

John Donne (séc. XVI)

Quando eu leio este poema, posso entender que alguém não queira colocar a responsabilidade de sua felicidade nas costas de outra pessoa. A responsabilidade sobre si mesmo é algo primordial a todo ser humano. Afinal, eu lavro minha felicidade através de meus pensamentos, sentimentos e palavras.

Contudo, entendo também que alguém possa dizer que deve ter a mesma atitude na tristeza ou na alegria. Mas olho com preocupação um pensamento muito em voga no mundo moderno no qual se diz que não se depende de ninguém a felicidade de uma pessoa. Que podemos prescindir dos outros como se fôssemos autossuficientes em nossas vidas.

Houvesse nesse pensamento, ou nessa forma de se enxergar o mundo, uma palavra, ou uma menção, ao Poder Superior, eu poderia concordar com ela. Contudo, quando alguém diz “decidi ser feliz como indivíduo” – se esquecendo de dizer “Deus decidiu me fazer feliz”, mostra de forma muito clara o desconhecimento de como são as coisas no plano espiritual.

Ninguém decide ser feliz tendo a felicidade como um fim em si mesma. As tradições antigas dizem claramente que a benção vem apenas e tão somente de Deus, e que a recepção de uma felicidade não é devido a uma questão de escolha de ser feliz, mas a de ser escolhido dentre aqueles que serão abençoados pela face divina neste caminho, porque há aqueles que sofrem pelo amor a Deus, e este sofrimento é capaz de lhes trazer tal grau de desprendimento que, consequentemente, faz com que eles alcancem alturas maiores do que a própria felicidade. Ou se poderia, também, dizer que se transcenda a própria felicidade, sem deixar de ser feliz.

A felicidade terrena é muito limitada. Esta felicidade pode ser escolhida, mas é falsa. Por que deveria eu escolher a felicidade terrena quando existe algo mais alto e inefável que é a meta que me foi presenteada? “Busca o Reino de Deus e sua Justiça e tudo o mais lhe será dado como acréscimo”. Onde está a palavra felicidade?

Se a pessoa soubesse qual é a origem da palavra felicidade, não diria tal coisa. Isto demonstra uma ignorância no dizer. A palavra felicidade vem do verbo “felare” (chupar). Interessante, não? E por que os romanos escolheram tal palavra para designar um estado de bem-aventurança? Porque eles imaginaram a suprema felicidade simbolizada por uma mãe amamentando uma criança. Ou seja: a mãe em harmonia com o filho ao dar, e o filho em harmonia ao receber.

Portanto, a própria origem da palavra “felicidade” tem a imagem de duas pessoas(!), e não de apenas uma. Assim, pode alguém ser feliz sozinho??? Mas da mesma forma me pergunto: pode alguém ser feliz apegado a alguém?

O homem só pode ser feliz se abençoado pelo Superior. E ele não escolhe isso. É arrogância, segundo meu entendimento, achar que se pode ser feliz sozinho ou escolher ser feliz. O homem pode escolher buscar o caminho da espiritualidade, buscar o caminho de Deus, como suprema meta de sua vida. Sozinho pode-se chegar a alturas maiores que a própria felicidade. Mas o sofrimento de qualquer homem me diminui. Isso é um ponto em que toda humanidade se questiona, como se fosse um paradoxo...

Lembre-se dos exemplos dos Bodisatwas, os Budas de Compaixão, em que em busca que trazer paz à humanidade se dispõem a trabalhar e prol do engrandecimento de seu próximo. Muito claramente Jesus também diz que o resumo dos dez mandamentos é “amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo”. E se não houver próximo, como fazer?

Como solução a este aparente paradoxo de felicidade, apego e desapego, existe um ensinamento budista que se chama “caminho do meio”. Ou seja, nem totalmente tenso e nem totalmente frouxo, mas na medida certa. Na busca de encontrar o caminho certo, não busquemos relaxar nossos compromissos com o próximo, e nem afogá-lo com nossa insegurança e com nosso apego a ele. O Caminho do meio passa por se entender que “nenhum homem é uma ilha”. E que se fôssemos totalmente independentes uns dos outros, não haveria sequer necessidade de pais, mães, filhos e filhas.

Existe um ponto em que o homem pode prescindir totalmente do outro? Sim, quando compreender que o “outro” é apenas uma ficção. Que não existe o outro, mas Deus e tão somente Deus (namastê). Mas antes de compreender isso, a afirmação de que se é totalmente independente do outro, ou totalmente dependente, pode soar à compreensão  como arrogância ou ignorância. Por isso: Luz, para iluminar a compreensão; Paz, devido à fuga da ignorância e estabelecimento da Luz; Amor para disseminar a Luz que recebeu e eliminar a ignorância em direção a Deus.

terça-feira, março 20, 2018

Um poema antigo...

I - Intróito

Surdamente, no fundo de um lago plácido
um vulcão espera o momento certo
de ferver e explodir:

Vê-se que a superfície não obedece
àquilo que o coração conhece
e quer expandir.

II - Dúvida

Uma barca serena, que em mim navega
toca-me sua quilha inquieta
com o vento a soprar.

Serei eu, um parvo, geografia e farol
neste imenso lago profundo
para quem quer navegar?

III - O lago, na verdade...

Extravasando-se de tudo, iluminando-me,
o Céu transmuta-se no atlas
que me há de nortear.

Superfície e fundura se casam no tempo:
No perfeito esponsal da alma
já não há o que nomear.


Para MRRS

segunda-feira, março 27, 2017

Perfeição é possível?

Perfeição é entregar a mensagem interior. A princípio, realizar suas potencialidades humanas para chegar a se unir à Divindade. Não confundir com perfeccionismo, que seria a vontade de fazer tudo "certinho".

Enquanto o perfeccionismo é artificial, fruto da individualidade, a perfeição se manifesta com naturalidade, transcendendo o indivíduo, trazendo com seu poder terapêutico a destruição do ego e a manifestação da glória divina.

Portanto, a perfeição só pode ser manifestada quando o ego deixa de existir (porque ele se baseia  apenas e tão somente na ilusão de que "é"), quando a vontade mesquinha se torna nula e apenas resta o silêncio interior, o "pensamento firme".

É possível?

O grande trabalho da modernidade é buscar destruir a espiritualidade, trazendo dúvida a qualquer esperança que alguém possa ter de algum dia o ser humano expressar a divindade neste mundo. No entanto, quando Jesus ordena "sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito", isso demonstra a factibilidade disso.

Eis, portanto, o significado da "morte da semente".

quinta-feira, janeiro 19, 2017

MÂYÂ não é "Ilusão"

A. K. Coomaraswamy dizia que o termo “Mâyâ” deveria ser traduzido como “arte” e não como “ilusão”, tendo em vista que a palavra ilusão nos remete a uma compreensão de “irrealidade”.

Portanto “Mâyâ” seria a “Arte Divina”, onde Brahma manifesta-se. Assim como vamos a uma exposição de arte e vemos um quadro de um pintor, e atribuímos o quadro à personalidade de um determinado artista, assim também “Mâyâ” apresenta ao homem a construção divina.

A ilusão está em considerar a “arte” não como a manifestação, mas como uma “realidade plena”, independente de um caráter superior.

Contudo, quando enxergamos que “Mâyâ” é como um mapa para se chegar ao Supremo Arquiteto, e que intuímos a fonte de onde se origina esta “arte”, então é vencida a ilusão. “Mâyâ” torna-se um “jogo” (Lyla), através do qual nos aperfeiçoamos até chegar à Divina Essência, da mesma forma que o xadrez desenvolve faculdades intelectuais que serão usadas em outras instâncias da vida.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

A Quadra (La copla - Manuel Machado)

até que o povo as cante
as quadras, quadras não são.
e quando as canta o povo
já ninguém sabe o autor.

Procure tu que tuas quadras
venham no povo chegar
ainda que deixem de ser tuas
para ser de todos os demais.

Pois, ao fundir o coração
nesta alma popular,
o que se perde de nome
ganha-se de eternidade.

terça-feira, julho 12, 2016

OS QUATRO SENTIDOS DE UM TEXTO



Convívio, II, 1
  Dante Alighieri

Os escritos podem ser entendidos e devem ser expostos principalmente em quatro sentidos. A um chama-se literal, [e este é o que não ultrapassa a letra da narrativa ficcional, como por exemplo as fábulas dos poetas. Ao outro chama-se alegórico,] e este é o que se esconde sob o manto dessas fábulas, e é uma verdade escondida sob uma bela mentira: como por exemplo quando Ovídio diz que Orfeu com sua cítara amansava as feras, e comovia as árvores e as pedras; o que significa que o homem sábio com o instrumento de sua voz amansa e humilha os corações cruéis, e comove à sua vontade aos que não têm vida de ciência e de arte; e aqueles que não têm vida racional nenhuma são quase como as pedras. (...) Na verdade os teólogos tomam esse sentido de maneira diversa dos poetas; mas como minha intenção é seguir aqui a maneira dos poetas, tomo o sentido alegórico conforme é utilizado pelos poetas.

O terceiro sentido chama-se moral, e é aquele que os leitores devem procurar descobrir nos escritos para sua utilidade e dos seus descendentes: como por exemplo pode-se aprender no Evangelho, quando Cristo saiu para o monte a fim de transfigurar-se, que dos doze apóstolos levou consigo apenas três; disto pode-se entender moralmente que nas coisas secretíssimas devemos ter pouca companhia.

O quarto sentido chama-se anagógico, quer dizer supra-sentido; e este ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna, como pode-se ver naquele canto do Profeta que diz que, na saída do povo de Israel do Egito, a Judéia é feita santa e livre. Se é manifesto que isto é verdadeiro segundo a letra, não é menos verdadeiro o que disto se entende espiritualmente, ou seja, que na saída da alma do pecado esta torna-se santa e livre em sua potestade. E, ao demonstrar isto, sempre o literal deve estar à frente, como aquele em cujo sentido os outros estão incluídos, e sem o qual seria impossível e irracional entendê-los, principalmente o alegórico. É impossível porque em toda coisa em que há dentro e fora é impossível chegar ao que está dentro sem primeiro passar pelo fora; portanto, como acontece que na escritura [o sentido literal] esteja sempre do lado de fora, é impossível chegar ao outro, principalmente ao alegórico, sem primeiro passar pelo literal. Ademais é impossível porque em toda coisa, natural e artificial, é impossível chegar à forma sem primeiro estar disposto o sujeito em que a forma deve estar: assim é impossível realizar-se a forma do ouro se a matéria, isto é, o seu sujeito, não estiver primeiro assimilada e preparada; e a forma da arca realizar-se caso sua matéria, que é a madeira, não estiver primeiro disposta e preparada. Conclui-se disto que, sendo o sentido literal sempre sujeito e matéria dos outros, principalmente do alegórico, é impossível chegar ao conhecimento dos outros sem o seu conhecimento. Ademais é impossível porque em qualquer coisa, natural e artificial, é impossível proceder se não se estabelece primeiro o fundamento, como em uma casa ou como no estudo: portanto, dado que o demonstrar é edificação de ciência, e a demonstração literal é o fundamento das outras, principalmente da alegórica, é impossível chegar às outras sem primeiro passar por ela.

Ademais, ainda que fosse possível, seria irracional, quer dizer, fora da ordem, e portanto proceder-se-ia com muita fadiga e com muitos erros. Daí que, se como diz o Filósofo no primeiro livro da Física a natureza quer que o nosso conhecimento se faça ordenadamente, indo daquilo que conhecemos melhor para aquilo que não conhecemos tão bem: digo que a natureza quer na medida em que essa via de conhecer é em nós naturalmente inata. E se os outros sentidos são menos compreendidos que o literal - como de fato é manifesto - seria irracional proceder à sua demonstração se o literal não fosse demonstrado.

In "Convivio", II, 1. Tradução de Roberto Mallet.

quarta-feira, maio 11, 2016

O ateu do Povoado (Edgar Lee Masters)

Oh vós, jovens que debateis sobre a doutrina
Da imortalidade da alma,
Eu, que me encontro aqui, fui o ateu do povoado.
Falador, contencioso, versado nos argumentos
Dos infiéis.

Mas através de uma longa doença
Tossindo até morte
Li os Upanishads e a poesia de Jesus.
E eles acenderam uma tocha da esperança e de intuição;
E a vontade da Sombra,
levando-me rapidamente através das cavernas das trevas,
Não conseguiu apagar.

Ouvi-me, oh vós que viveis nos sentidos
E pensai unicamente através dos sentidos:
A imortalidade não é uma dádiva,
A imortalidade é uma conquista;
E apenas aqueles que se esforçarem poderosamente
Conseguirão obtê-la.
(Tradução: Roger Avis)

ASPECTOS SIMBÓLICOS DO TRABALHO EM CANTARIA - Roger Avis



Se o eterno não edificar a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam.
Salmo 127:1
(Cântico das peregrinações de Salomão)

Aplicai-vos, pois, de todo o vosso coração e vossa alma a bus­car o Senhor vosso Deus. Construí o santuário do Senhor Deus, para trazer a arca da aliança do Senhor e os utensílios sagrados de Deus ao templo que será edificado ao nome do Senhor.
1 Crônicas 22:19

O Eu é o mestre do eu. Cada um é o seu próprio mestre e refú­gio, quem outro poderia ser? O completo domínio de si mesmo é o único refúgio, difícil de alcançar.
Sidarta Gautama (Buda)

Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa 

             Na passagem da maçonaria operativa para a maçonaria especulativa, muitos dos detalhes da nobre arte da cantaria foram deixados de lado em prol da adaptação realiza­da. Os livres pensadores que adotaram os ensinos maçónicos não estavam interessados na prática manual do canteiro, que era um serviço pesado e, portanto, buscaram simpli­ficar no simbolismo.
Esta simplificação simbólica trouxe um relativo "empobrecimento" no sentido do conhecimento da arte, onde diversos detalhes do trabalho nos canteiros, ao serem deixados de lado, obscureceram facilitações teóricas no caminho do auto-conhecimento.
Para se adentrar mais nestes aspectos, e verificar sua real importância, devemos dizer que a palavra "cantaria" vem, etimologicamente, do latim "canthus", que significa "aresta"[1]. Desta forma, o conceito de cantaria se refere ao trabalho em pedras objeti-vando seu esquadrejamento, ou a sua formatação no sentido de servir ao projeto cons­trutivo. Na maçonaria especulativa, simplificamos: "tornar a pedra bruta em pedra cúbi­ca".

Maçons trabalhando


O que é do desconhecimento da maioria dos maçons é o fato de que o conheci­mento tradicional sobre o trabalho operativo era transmitido através de técnicas que sempre buscavam um sentido efetivo de aperfeiçoamento não só do trabalho, mas tam­bém do profissional, pois se entendia que a perfeição daquele passava pela perfeição deste, em todos os aspectos, dentre eles o prático, o psíquico e o intelectual. Quanto mais aperfeiçoado internamente, mais perfeita será a habilidade do obreiro e, conse­quentemente, da obra.
 Aqueles que estudam os textos antigos percebem que a utilização metafórica do traba­lho comum, analogicamente relacionado à espi­ritualidade, é algo constante nas civilizações do passado - egípcia, caldaica ou medieval, ou por aqueles que, nos sertões mais afastados dos grandes centros urbanos, ainda empregam a­quelas técnicas artesanais tradicionais.
No Oriente, por exemplo, existia toda uma explicação simbólica para a prática do ofício da tecelagem, onde os fios paralelos, presos ao tear, são os influxos espirituais manifestados através das leis universais, en­quanto que os fios horizontais, adicionados ao serem tecidos, são as atividades nos pla­nos manifestados. Assim, simbolicamente, nossas ações, quando levando em conta os influxos espirituais do "Grande Tecelão do Universo"[2], só poderão ser realmente profí­cuas a partir do momento em que com estas sejam harmônicas. A falha de um ponto na tecelagem poderia deitar fora todo o trabalho.
Da mesma forma, no ocidente, temos exemplos de diversas profissões -senão todas as que existiam na antiguidade ou idade média- que se utilizavam desta espécie de simbolismo para ensinar que, ao se trabalhar o material, também se trabalhava em ou­tros aspectos do ser, e que era necessário ter atenção para isto. A matéria-prima artesa­nalmente trabalhada pelo obreiro era o espelho onde ele poderia apreciar seu próprio caráter.
Outra coisa que é geralmente menosprezada pelos estudiosos é o fato da maço­naria operativa ter em seu bojo aspectos filosóficos profundos, e que a maçonaria espe­culativa somente pôde frutificar em seus estudos porque isto já era uma realidade à épo­ca de seu nascimento. Alguns estudiosos, inclusive, desprezam esta espécie de aborda­gem, entendendo que apenas com a maçonaria especulativa é que se obteve um apro­fundamento no conhecimento, tendo em vista o advento no seio daquela ordem de pes­soas letradas, pensamento com o qual, respeitosamente, não nos alinhamos.
Essa espécie de perspectiva toma por base um preconceito cultural, onde se es­tende o olhar de nossa época para medir todas as épocas anteriores. E este preconceito, que não sabe enxergar seu próprio anacronismo, faz com que os sábios de nosso tempo se limitem a uma forma de pensar estreita, sem realmente aproveitar o conhecimento oriundo da antiguidade. Mas, isto já seria a matéria de um outro trabalho. Apenas men­cionamos para que o leitor possa levar em conta, também, que se quisermos extrair a essência de qualquer coisa, devemos conhecê-la sem preconceitos, conforme é propala­do pelos mesmos ensinos maçônicos[3].

As ferramentas do Canteiro[4]
Como são desconhecidas pelos maçons atuais muitas das ferramentas dos cantei­ros, abaixo vão exemplos de algumas poucas ferramentas modernas utilizadas atualmen-te no trabalho de cantaria artesanal, fabricadas pela empresa americana Trow & Holden Company[5]:


Como se pode perceber, existe uma infinidade de ferramentas utilizadas no tra­balho do canteiro além daquelas mencionadas na maçonaria especulativa. É óbvio que os processos de formatação da pedra bruta atravessavam uma série muito maior de deta­lhes, hoje desconhecidos na maçonaria especulativa, que levavam os mestres obreiros a situações reflexivas não encontradas na especulação.
A figura do camartelo (ferramenta parecida com um martelo pontiagudo, que é utilizada para o primeiro trabalho, mais grosseiro, na pedra bruta), por exemplo, utiliza­da no Rito Schrõder, provém da mais antiga tradição dos maçons operativos, não absor­vida pelos outros ritos em geral. Numa miniatura do séc. XV, do artista francês Jean Fouquet, mostra-se a utilização desta ferramenta para o desbaste da pedra bruta.
O "buril"[6], no caso do trabalho em pedra, trata-se de uma espécie de cinzel pontiagudo [conforme o Hou-aiss, "ferramenta de aço com ponta oblíqua cortante (... ) para lavrar pedra"], que vai dar um trato rústico na pe­dra, podendo ser usada após o "camartelo", ou já direta-mente (dependendo do tipo da pedra). Também pode ser utilizada para o início do acabamento no caso de figuras escultóricas 
A abordagem que efetuamos neste título serve apenas para demonstrar que os conhecimentos relativos ao trabalho maçónico operativo tinham detalhes muito maiores do que os apresentados atualmente, e que a ri­queza destes detalhes poderia levar a aspectos desconhecidos de um simbolismo mais claro e preciso, objetivando, também, maior precisão no processo de autoconhecimento e aperfeiçoamento.


Aspectos práticos de como trabalhar literalmente à pedra bruta
Em primeiro lugar, antes da existência da matéria prima para o trabalho do can­teiro, há a necessidade da sua extração na pedreira. Neste momento, o artífice escolhe na fonte de qual lugar quererá extrair o material que deseja. Deve levar em conta para que propósito se utilizará a pedra, pois a escolha do lugar da pedreira já influi na espécie de matéria prima que se obterá.
Após a extração da fonte, ou seja, o nascimento da pedra-bruta em sua forma in­dividual, traça-se todo um plano em que são considerados os métodos de trabalho no sentido de buscar como resultado a adaptação da matéria-prima ao lugar em que ela está destinada. Podemos chamar de aperfeiçoamento, neste caso, o caminho que se faz da pedra bruta até chegar à pedra polida. Este trabalho, didaticamente, poderia ser classifi­cado em cinco partes:
1)   Punçoar ou burilar - neste momento, fazemos com que as grandes diferen­ças existentes sejam atingidas pelo buril até que fiquem pequenas. Neste trabalho, con­forme mostra a figura a seguir, deixam-se normalmente estrias em diagonal;
2)   Dentear - depois do burilamento, utilizamos o cinzel denteado para diminuir ainda mais as diferenças, buscando eliminar as estrias do trabalho anterior, deixando as marcas dos dentes desta ferramenta. O cinzel denteado deve ser utilizado de forma reta, no mesmo sentido das laterais da pedra utilizada. Utilizam-se para isto diversos cinzéis denteados, dos de dentes maiores aos de dentes menores, até ser utilizado, finalmente, o cinzel sem dentes, mais conhecido na maçonaria especulativa. Alguns chamam o cinzel denteado de buril, também;
3)   Cinzelar - o cinzel, propriamente dito, conforme demonstrado na maçonaria, é utilizado neste momento. Neste caso, começa um trabalho de alisamento da pedra, eliminando a maior parte das marcas anteriores;
4)   Esmerilar - a pedra de esmeril é utilizada, suavizando o máximo possível as marcas do cinzel. Na maçonaria operativa, observava-se um movimento manual contí­nuo e circular e, aos poucos, e adicionando constantemente a água para eliminar obstru­ções (escorregar), a superfície ia ficando lisa;
5)   Polir - para finalizar o serviço, e a superfície ficar totalmente lisa e espelha­da, utilizam-se lixas de diversas granaturas (de 150, 220, 300 e 600), gradualmente da mais grossa para a mais fina.

 
trabalho da pedra-bruta à pedra polida[7]

Ativemo-nos em considerar apenas o trabalho em pedra porque era a perspectiva do trabalho dos canteiros, da qual a maçonaria surgiu. Outras profissões tradicionais vão conter similaridades com o que aqui foi descrito.
Relações analógicas entre a cantaria e o trabalho interno
A Extração da pedra-bruta diretamente da pedreira é muito similar à escolha efe-tuada do profano apto a entrar na maçonaria. Afinal, a sociedade profana muito se as­semelha a uma pedreira, onde a multidão sufoca o talento individual, fazendo com que muitas vezes o indivíduo não encontre seu caminho.
É necessário acrescentar que, seguindo a tradição da maçonaria brasileira, os profanos são escolhidos para integrarem a sublime ordem. Isto faz-nos considerar a ma­çonaria como o artífice que visita a pedreira em busca do material necessário para cum­prir a sua obra, entendendo, queremos deixar claro, a ordem como um canal que veicula forças superiores a este estado de manifestação.
Sobre este fato, podemos considerá-lo ainda de duas formas: de maneira macro-cósmica ou microcósmica. No primeiro aspecto, o artífice seria o GADU que escolheria os aptos a veicularem seus desígnios na consubstanciação do Templo Universal. Micro-cosmicamente, o próprio iniciado, em seu trabalho meditativo, identificaria os aspectos de seu ser que deverão ser pinçados de seu interior e trabalhados conforme estes mes­mos desígnios, para que a verdade seja expressa.
O maçom deve aprender a reconhecer no emaranhado informe de sua existência cotidiana os aspectos sublimes de seu ser, e seu trabalho é reconhecer quais deles deverá trabalhar durante sua vida para melhor expressar sua destreza, ou sua sintonia com o Todo. A isto as pessoas costumam chamar, talvez impropriamente, de "missão". Na atualidade, o maçom pode ter em sua frente uma quantidade enorme de perspectivas onde expressar sua vida. Contudo, somente aquelas que coadunam com seu caráter é que lhe trarão a verdadeira realização. As outras deverão ser desprezadas, porque quem tudo quer, nada consegue.
Se o iniciado escolheu a matéria prima correta onde trabalhar, ou seja, escolheu os aspectos de si mesmo que deverão receber sua atenção de agora em diante, e que serão trabalhados com suas virtudes, seu trabalho não será em vão. Contudo, se há fa­lhas na matéria prima, ou seja, se não escolheu corretamente o aspecto que deverá ser trabalhado, deverá retornar à pedreira de si mesmo e, através de um estudo mais apro­fundado e orientado, encontrar o material correto para seus objetivos[8].
Após um exame acurado, enxergam-se as matérias primas interiores misturadas com outros agregados psíquicos, frutos estes de diversas origens, principalmente dos preconceitos e erros que nos habituamos a aceitar e continuamos a engendrar, seja da criação, seja da influência da sociedade. A origem pode ser grosseira (agressões, vícios, luxúria, etc.) ou mais imperceptível (costumes, sofismas, paradigmas, etc.).
Logo após de escolhida a matéria prima, o maçom deverá fazer um desbaste a­centuado, onde as maiores imperfeições são retiradas. Podemos, simplificando, encon­trar três pontos a serem trabalhados em primeiro lugar: físico, psíquico e mental. É claro que não existem fronteiras estanques entre eles, e que os aspectos a serem trabalhados podem conter características de todos estes: um pouco mais de um, um pouco menos de outro.
Por exemplo, a glutonaria: existe a necessidade de se encontrar a raiz psicológica que induziu o indivíduo a tal situação para extirpá-la completamente; contudo, em de­terminados casos, se não houver uma modificação radical no jeito de se alimentar talvez a base material onde trabalhamos, que é o próprio corpo, pode deixar de existir e o indi­víduo simplesmente morrer, antes de encontrar essa raiz psicológica e extirpá-la.
Logo a seguir, fazemos um pequeno esboço destas considerações acima, trazen­do, de maneira superficial, algumas analogias necessárias dos trabalhos da cantaria com os trabalhos que o maçom deve perpetrar em si mesmo para seu crescimento e aperfei­çoamento:


Cantaria
Aspecto Físico
Aspecto Psíquico
Aspecto Mental[9]
Burilar[10]
Extirpação de hábitos extremamente danosos à saúde: fumo e drogas.
Eliminação de senti­mentos extremamente grosseiros como ódio ou ira.
Considerar-se como um receptor, estando pron­to ao aprendizado.
Dentear
Aperfeiçoamento dos hábitos tendo como meta melhor saúde: alimentação.
Cultivo da paciência e da conformação.[11]
Estudar os ensinamen­tos maçônicos, buscan­do compreender e me­morizar o relevante.
Cinzelar
Domínio de sua vida sexual.
Cultivo do amor frater­nal.
Meditar sobre os ensi­namentos e excluir o supérfluo.
Esmerilar
Domínio sobre a respi­ração.
Cultivo do Amor in­condicional.
Compreender a verda­deira natureza do Ho­mem.
Polir
Domínio sobre todos aspectos fisiológicos.
Superação da individu­alidade.
Libertação dos concei­tos, em busca da Su­prema Identidade.

Nos exemplos acima demonstrados na tabela, devemos levar em conta que esta relação não é finalista, apenas exemplificativa. Cada um deve aprender a conhecer seu próprio caráter e, através do estudo sincero e objetivo, levando em conta os ensinos tra­dicionais, reconhecer a graduação com que deve ser efetuado do trabalho interior. Cada um, dentro de suas características próprias, deve saber encontrar quais aspectos deverá trabalhar dentro de si mesmo.
O que devemos entender é que, dentro da perspectiva maçônica, em todos os as­pectos está envolvido um caráter gradual de crescimento (veja o simbolismo da escada), que deve ser levado em conta a partir do momento em que se decide trabalhar sobre si mesmo. Não se passa para o próximo degrau enquanto o anterior não estiver trabalhado. Da mesma forma não se cinzelará enquanto o denteamento não estiver totalmente pron­to.
Ao se transportar à perspectiva da maçonaria especulativa o trabalho de cantaria, percebe-se que houve uma grande simplificação, tendo em vista que já não se tratavam mais de operários da pedra, mas de livres pensadores, que desconheciam a espécie de trabalho efetuado, ou não queriam se ater a este.
Contudo, dentro do conhecimento tradicional, os trabalhos operativos tinham o objetivo meditativo, onde o artesão utilizava seu trabalho com o sentido de se aperfeiço­ar.
Como já foi descrito, havia no trabalho de transformação da pedra bruta em cú­bica uma dedicação de dias, variando conforme a complexidade do trabalho e da dureza do material, onde uma falha poderia fazer perder todo o processo. Por este motivo, ha­via a necessidade de se ter, em primeiro lugar, paciência. Este trabalho de transformação está muito ligado, neste caso, à paciência que temos ao abordar uma determinada maté-ria-prima. Se vamos impetuosamente sobre ela, podemos errar. Se utilizarmos força minúscula, podemos demorar além do necessário.
Neste caso, as virtudes seguintes que se ligavam ao processo de transformação eram o equilíbrio e a firmeza. Podemos, assim, já neste momento, encontrar similarida­des entre o trabalho externo, na pedra, e o trabalho interno, no caráter.
Sobre o burilar, dentear e cinzelar podemos concluir que se tratam de processos em que a força é fundamental, sendo característico da passagem de uma fase para a ou­tra a diminuição da força e o aumento da destreza. Poderíamos identificar desta forma: a) Burilar - mais força e menos destreza; b) Dentear - força e destreza na mesma medi­da; c) Cinzelar - mais destreza do que força. 
Isso demonstra que os próprios processos de trabalho no caráter também apresentam aspec­tos em que determinados pontos de vista devem ser abordados. A princípio, a força é extrema­mente necessária para excluir os defeitos mais evidentes. Dentro da maçonaria especulativa, os aprendizes sentam-se no lado norte, sob a égide do Irmão 1.° Vigilante, que é o responsável pela veiculação da força numa Loja. Este fato é bas­tante característico, tendo em vista o trabalho mais forte que se deve ter quanto aos aprendizes, ainda eivados de profanidades.
No entanto, com a sequencia do trabalho, já a experiência (que na maçonaria é o conhecimento teórico adquirido e praticado) aliada com a destreza vem se tornando muito mais importante, chegando ao ponto de ser quase a única determinante. A experi­ência, ou a perícia, são o aprimoramento do conhecimento do artífice em sua própria arte. O maçom, no hábito de trabalhar sobre si mesmo, encontra a própria arte que o conduz ao aperfeiçoamento cada vez mais refinado.
Quando falamos nos trabalhos que efetuamos sobre o nosso próprio caráter, so­bre o cinzel e o malho, temos que levar em consideração, também, os ensinamentos que a maçonaria especulativa transmite aos obreiros. Abordá-los, neste momento, é necessá­rio no sentido de nos conduzirmos a um aprofundamento ainda maior sobre este traba­lho.
Lavagnini diz o seguinte:
(... ) o malho e o cinzel, como instrumentos propriamente ati-vos, representam exatamente os esforços que, por meio da Vontade e da Inteligência, temos de fazer para nos aproximar­mos da realização efetiva desses Ideais, que representam e ex­pressam a perfeição latente de nosso Ser Espiritual. O malho, que utiliza a força da gravidade de nossa natureza subconscien­te, de nossos instintos, hábitos e tendências, é pois, representa­tivo da Vontade, que constitui a primeira condição de todo progresso e é ao mesmo tempo o meio indispensável para realizá-lo[12].

Isto que Lavagnini diz é simplesmente o básico a ser mencionado sobre os as­pectos da utilização do buril e dos cinzéis, juntamente com o malho. Encontraremos em diversos autores poucas variações, nada substanciais. Todos eles funcionam simbolica­mente da mesma forma (seja o buril ou os cinzéis), tendo, contudo, cada um, suas carac­terísticas próprias, já mencionadas.
O que geralmente não se fala é quem, ou o que, é o responsável pela movimen­tação dessas ferramentas supra mencionadas. Guénon nos fala da Divina Personalidade, que é quem fala atrás da máscara - a persona, que é a nossa individualidade.
É esta Divina Personalidade a verdadeira responsável pelo manejo dos instru­mentos. E no caso do trabalho operativo sobre o nosso próprio caráter, a matéria prima, que somos nós mesmos, é a desculpa (grosso modo) necessária para que esta essência real de nosso ser se manifeste. E este é o verdadeiro trabalho do iniciado: não é olhar os instrumentos vibrando na frente de seus olhos, mas perceber quem olha. Não é se pren­der à vontade e à inteligência, mas suprimir esta atenção aos instrumentos, e voltá-la ao verdadeiro artífice interno[13].
Falar mais sobre o simbolismo dos cinzéis e do malho seria supérfluo neste mo­mento. Diversos manuais sobre o assunto já discorreram o suficiente para que necessi­temos continuar aqui. Somente queremos alertar que o simbolismo deve ser visto no coração, e presenciado também no coração para que seja realmente efetivo.
Quanto ao esmerilar e polir, que são trabalhos onde a força já não é tão impor­tante, mas principalmente a destreza, carregam consigo um aspecto fundamental: o mo­vimento circular. Ao movimentar a mão com o esmeril, ou com a lixa, o obreiro segue compassadamente uma ordem, onde toda a superfície é atingida para se chegar ao objetivo.

Sabemos que o círculo é o símbolo do infinito e da perfeição. A circularidade do movimento da lixa na face quadrada do cubo nos parece carregado de reminiscência no tocante à quadratura do círculo. O círculo vem aperfeiçoando a face quadrada da pedra cúbica.
A utilização da água é revestida, também, de seu caráter simbólico. A água, sen­do utilizada como é, torna-se o veículo para a perfeição. E dentro do simbolismo esoté­rico encontramos na alma a referência da água. A água, batizando a pedra, torna-a capaz de receber a perfeição do artífice, bem como de chegar à realização do trabalho. Somen­te através da alma o espírito pode realizar a obra.
O obreiro, neste ponto do trabalho, ao passar a mão pela superfície completa da pedra, deve demonstrar a sensibilidade necessária para compreender que já extraiu da pedra bruta a pedra cúbica.

Conclusão: Iniciações nos mistérios menores e maiores
Especificamente quanto ao trabalho de cantaria, da formatação da pedra, ele se relaciona ao que os gregos antigos chamavam de "mistérios menores". A iniciação nos mistérios menores buscava com que o homem expressasse o máximo de sua perfeição enquanto homem. Na maçonaria simbólica atual, estas considerações estariam demons­tradas principalmente nos graus de companheiro e aprendiz.
As iniciações nos mistérios maiores bus­cavam com que o homem superasse sua condição individual e se unisse à divindade. Enquanto as iniciações dos mistérios menores apontavam o caminho à perfeição humana, as dos mistérios maiores apontavam para uma perfeição divina, a do homem transcendente.
Seria, neste caso, a segunda morte, apre­sentada na maçonaria no magistério maçônico.
A iniciação nos mistérios maiores estaria simbolicamente relacionada mais diretamente ao ofício da arquitetura e da efetiva construção, o que pode ser tema de outro trabalho.


            Este trabalho apenas pincelou algumas considerações superficiais sobre o ofício de canteiro, que poderão ser aprofundadas na no estudo, pesquisa e meditação de cada obreiro. Cumpre destacar que o ensinamento maçônico tem sido habitualmente utilizado em limites aquém de seus objetivos, e cabe a nós, maçons, começar a mudar esses limites e parâmetros estabelecidos, sob pena de contribuirmos cada vez mais para o desaparecimento virtual e, após, efetivo de nossa Augusta Ordem.
Assim, os estudos elaborados na atualidade devem procurar resgatar, conforme buscamos fazer aqui, os fundamentos do ensino, estabelecendo e renovando as conexões com a origem prístina do legado maçónico.
E também, com este mesmo objetivo, àqueles capazes de uma obra mais abran­gente e hercúlea, recriar as possibilidades iniciáticas para as mulheres, tendo em vista que, no Ocidente tais sociedades desapareceram, ou delas não se tem mais notícia. Mas para isso, tanto para o reavivamento do conhecimento maçónico, tanto para possibilitar uma iniciação feminina, de acordo com as características próprias das mulheres[14], é ne­cessário o mergulho na matéria prima iniciática do ocidente, e buscar trazer à tona aqui­lo que se ocultou em nossa época.

NOTAS:

[1] Desde a origem, podemos perceber que a tônica dos trabalhos efetuados pelos maçons operativos sem­pre foi no sentido de "tirar as arestas", e encontrar a pedra lavrada que já habita o interior da pedra bruta.

[2] Usamos este nome para a divindade dos tecelões apenas para fazer um paralelo entre este e o GADU. Este termo é fictício. Contudo, o simbolismo da tecelagem existiu na antiguidade e, até, na idade média. É bem significativo notar sobre isso a informação de Guénon: "(...) os livros tradicionais são frequentemen­te designados por termos que, em seu sentido geral, referem-se à tecelagem. Assim, em sânscrito, sútra significa propriamente "fio": um livro pode ser formado por um conjunto de sútras, como um tecido é formado por um conjunto de fios; tantra possui também o significado de "fio" e de "tecido", e designa mais particularmente o urdume de um tecido. Da mesma forma, em chinês, king é o urdume de um pano, e wei sua trama; o primeiro destes dois termos designa ao mesmo tempo um livro fundamental, e o se­gundo seus comentários. Esta distinção entre urdume e trama no conjunto das escrituras tradicionais cor­responde, segundo a terminologia hindu, à que existe entre a Shruti, que é o fruto da inspiração direta, e a Smriti, que é o produto da reflexão que se exerce sobre os dados da Shruti ." (René Guénon, O Simbolis­mo do Tecido - XIV capítulo do livro "O Simbolismo da Cruz").
[3] Algo que é deve ser levado em consideração para meditarmos sobre este assunto posteriormente, é a apreciação de uma catedral gótica, que é uma verdadeira enciclopédia de conhecimento, onde o coração humano se expressou de formas sublimes. Cremos que ignorantes de mente estreita seriam incapazes de dar cabo de tal tarefa. E somente um ideal refinado poderia impulsionar pessoas a participarem da cons­trução de um edifício como este durante séculos a fio, sem preocupações imediatistas, tão características de nossa época.

[4] Os maçons operativos reuniam toda uma série de procedimentos, que não se atinham apenas ao trabalho de cantaria, tais como a arquitetura e a carpintaria. No entanto, todos os aspectos abordados mais abaixo também poderão ser aplicados analogicamente à carpintaria. Quanto à arquitetura propriamente dita, faremos algumas considerações mais ao final do trabalho.
[5] Citamos a empresa por termos utilizado de figura existente em sua página eletrônica.
[6] Outras ferramentas são chamadas "buril", utilizáveis em outros materiais (madeira e metal, por exemplo) e com funções diversas. Contudo, em se tratando da maçonaria, o buril que deve ser levado em conta é o mencionado. É claro que, com a decadência dos trabalhos em pedra, o buril para gravação em metal ficou mais conhecido.

[7] Figura adaptada do livro "The Complete Book of Self-Sufficiency", de John Seymour.

[8] Podemos exemplificar esta situação da seguinte forma: alguns têm uma inclinação para determinado tipo de comportamento mais característico que seria, para ilustrar, o orgulho. Se ele não buscar trabalhar sobre este aspecto psicológico negativo de imediato, e não procurar sublimá-lo e, em vez disso, escolher um outro, tal como a inveja, que não seria tão importante em seu caráter, pode acontecer de não conseguir se livrar nem de um, nem da outra. Por isso, a escolha sobre o que deve se trabalhar deve ser tomada criteriosamente, levando sempre em conta as virtudes e os defeitos que se têm. Virtus = força.
[9] Estes aspectos podem ser estudados dentro da mesma perspectiva do Yoga: Hatha, Karma e Jnana.

[10] o burilamento é a extração das diferenças mais grosseiras, que tornariam o maçom incapaz de aproveitar os ensinamentos a ele dirigidos. O burilado não busca a eliminação imediata das imperfeições, mas sim a formatação destas de uma forma que não impeçam o aprendizado.
[11] Os primeiros resultados ainda não são o objetivo buscado, que se realiza com o tempo. Por isso a necessidade de paciência (a famosa tolerância maçônica) consigo mesmo e com os outros.

[12] Manual do Aprendiz Maçom - Aldo Lavagnini.
[13] Os Upanixades oferecem um texto interessante, mostrando a importância deste aspecto simbólico, que muitas vezes é desconsiderado na maçonaria: (6). "Tendo compreendido que os sentidos são distintos da alma, e que sua ascensão e declive a eles per­tence, o sábio deixa de sofrer. (7). "Além dos sentidos está a mente, além da mente está o Ser supremo, além do Ser supremo está o Grande Ser, além do Grande, o Oculto. (8). "Além do Oculto está a Persona­lidade, o onipresente, completamente imperceptível. As criaturas que lhe conhecem são liberadas e obtêm a imortalidade. (9). "Sua forma não pode ser vista, pois ninguém pode lhe contemplar com os olhos. Só pode ser conhecido com o coração, que se acha além da sabedoria e a mente. Só aqueles que sabem isto são imortais. (10). "Quando todos os sentidos e a mente são submetidos, o sábio alcança o estado supre­mo. (Kata Upanishad, Segundo Adhyaya, Sexto Valli)

[14] Segundo nosso entendimento, é necessário possibilidades de ordem iniciática para as mulheres, devi­damente embasadas na tradição. Tais possibilidades se estendem apenas no Oriente, enquanto que no Ocidente estão adormecidas, até o momento de serem reavivadas. Entendemos que a maçonaria não seria o lugar deste processo pelas próprias características da ordem. Em se conhecendo os fundamentos da ordem, fica bem claro que seus ensinamentos não serviriam para uma espécie de iniciação feminina. Tra­tar desiguais de forma igual é um dos absurdos que grassa em nossa época.
Existem, dessa forma, ofícios femininos que poderiam servir de base a toda uma simbólica de uma orga­nização iniciática. O cuidado que uma organização iniciática pré-existente, tal como a maçonaria, deveria ter é o de proporcionar uma adaptação simbólica monumental, sem escorregar para o campo da fantasia. Trabalho muito árduo.