domingo, abril 08, 2007

Considerações sobre a Felicidade

A importância de se ter paz interior é muito grande. Se atropelarmos as coisas, estamos sujeitos à infelicidade. Portanto, a riqueza inacessível às forças deste mundo é a fonte da paz, da luz e do amor.

Esta Fonte, aos olhos racionais, é um paradoxo, que deve ser sublimado pelo coração: ao mesmo tempo que se alteia de um plano aparentemente inacessível, ou seja, vem do alto, está depositada em nosso interior.

Neste caso, a expressão dela é que nos torna mais felizes, enquanto a sua supressão é capaz de nos liquidar.

Se todo homem busca sua felicidade, por qual razão esta felicidade se apresenta diante dele? Como pode ele compreender, dentro das misturas que a ilusão tenta fazer na realidade, o que é a verdadeira felicidade?

Está claro que toda pessoa constrói sua felicidade. Ainda que pareça, aos olhos dos outros ser infeliz, ainda assim, em seu interior, a pessoa pode ser feliz, porque a felicidade não é apresentável a este reino material, reino das quantidades, pois está acima da visão material.

Na simplicidade de visão, a felicidade se apresenta com uma aceitação interna da vida que se leva, ou, em outras palavras, é o estarmos bem conosco. Mas devemos observar que isto é apenas o sinal da felicidade se apresentando. Porque a felicidade, segundo posso ver, é expressarmos a Deus em sua perfeição. Ou, conforme diz Jesus: "Sêde perfeitos como vosso Pai celestial é Perfeito".

Portanto, em maior ou menos grau, a Divina Presença que existe em nossas vidas é quem torna factível o viver. É o Superior, que está em nós. Portanto, dentro dessa visão, a felicidade é termos consciência plena desta Divina Presença, o que só seria possível a partir do momento que a expressássemos.

No entanto, existe algo superior à felicidade, que não está acessível ao homem neste atual estágio de evolução: A união plena com Deus.

Uma vez eu estava meditando e buscava entender o que era perfeição... Então, veio-me uma visão: eu me vi dentro de um buraco escuro que eu entendi que era, na época, minha condição presente...

Nesse momento, vagarosamente, fui elevado para a boca desse buraco e, quando coloquei a cabeça pra fora, vi uma planície noturna e um céu estrelado.

Uma voz me dizia assim:” isso é a perfeição... apenas o começo da caminhada”.

Então, naquele momento, entendi que a perfeição que tanto falamos é quando o homem está preparado, pois a perfeição está em nós aguardando apenas ser expressada.

Neste caso, a princípio, o homem busca a felicidade como fiel condição de expressar sua natureza real e humana. Porém, chegará um momento que a felicidade já não será suficiente, porque somente a dissolução da Alma no Amado seria capaz de suprir tudo.

Quando Jó dizia: "minha alma tem tédio de minha vida", era, segundo o meu ver, a isso que ele se referia. Da mesma forma que São Franscisco fala: "É morrendo que se vive para a Vida Eterna". E da mesma forma que os místicos, sejam cristãos, mulçumanos ou judeus, entendem: "o que é vida para muitos, para mim é morte; e o que é morte para muitos, para mim é vida". Ou seja, a maior felicidade deste mundo ainda é pequena em comparação, se podemos dizer dessa forma, com o que nos espera em outros estados do ser.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Quem é o aprendiz? (2)

Quando eu escrevi um texto, em 04/10/2006, em que citei uma frase dizendo “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”, alguém escreveu dizendo que já tinha lido uma frase semelhante, mas de natureza diversa: “quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece”.

Apesar de entender o sentido colocado pela frase, em que o discípulo pronto já não teria mais razão de ter um mestre, alguém que o guie, ainda assim vejo que a primeira frase seja mais completa, porque fala de dois pontos de vistas necessários. O primeiro, que já mencionei no texto de 04/10/2006; o outro seria o seguinte: O mestre que aparece é, caso se possa dizer assim, o “Si Mesmo” do próprio discípulo.

Desta forma, entende-se que a única função do Mestre (que é, talvez, a mais sublime missão de um homem enquanto tal) é de despertar o discípulo para sua essência, e fazê-lo enxergar que o Mestre que ele vê fora, também está dentro.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O que é um "símbolo"?

A vida é simbólica. Entendemos que a palavra “símbolo”, e suas derivadas, tem sido utilizada aquém de seu sentido primeiro, pois os símbolos não são necessariamente criações da mente humana. Esta, sim, é o instrumento capaz e necessário para se instruir através dos símbolos. E a vida, ao nosso redor, viceja de exemplos. Portanto, antes de adentrarmos nesta questão, vejamos o que entendemos por símbolos.

Hoaiss coloca a etimologia da palavra da seguinte forma: “um objeto partido em dois, em que dois hospedeiros conservam cada um uma metade, transmitida a seus filhos; essas duas partes comparadas serviam para fazer reconhecer os portadores e para comprovar as relações da hospitalidade contraída anteriormente”. Ou seja, a partir do momento em que duas pessoas juntavam suas respectivas metades, havia, neste caso, um sinal de reconhecimento. Silveira Bueno coloca a origem da palavra de maneira bem significativa; ela viria do grego symbolon, do verbo symballo – “eu comparo”[1].

A palavra reconhecimento também tem um aspecto a ser colocado. Reconhecer tem o significado de prestar ao objeto do reconhecimento uma validade, ou uma certificação. E, ao mesmo tempo, para que haja este reconhecimento, há a necessidade de um conhecimento prévio. Neste caso, a partir do momento em que o objeto do reconhecimento se encontra à disposição de nossa consciência, fazemos uma comparação com aquilo que temos em nosso interior com aquilo que percebemos externamente. Assim, para se efetuar o reconhecimento há a necessidade de um conhecimento prévio.

Temos então duas palavras que, juntas, conformam um entendimento: símbolo (duas metades de uma coisa) e reconhecimento (ato de identificar algo).

Portanto, quando falamos de “símbolo”, estamos falando também de uma espécie de conhecimento analógico, em que se faz o “reconhecimento” de algo, estabelecendo entre duas coisas uma relação ou uma semelhança. E, as duas coisas sobre as quais colocamos o nosso conhecimento analógico são: uma interna e outra externa.

Para deixarmos bem clara esta parte, um símbolo não seria uma mera convenção estabelecida. O símbolo, conforme René Guénon coloca, “é uma pegada do invisível”, é essencialmente “não-humano”, ou seja, criado conforme forças não pertencentes a esta modalidade de existência na qual o ser humano está. Em sendo assim, o símbolo funciona como uma mensagem da eternidade ao homem, como algo que o faz despertar para idéia da filiação a uma origem superior, dita “espiritual” ou “divina”.

Portanto, desta forma, o símbolo seria a metade externa que despertaria no homem o conhecimento da metade interna, já nascida com ele. Enxergando assim, toda a natureza representaria uma mensagem da Divindade ao homem, cabendo a este decifra-la com o conhecimento que se acha guardado em seu coração. E, o que é muito importante, o símbolo funcionaria como fator revitalizante da consciência, tendo em vista seu caráter de produzir no próprio homem a sede de saber a “Verdade”, para através deste conhecimento obter a plenitude.
.....
[1] Francisco da Silveira Bueno – Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa – 7.º Volume – Edição Saraiva – São Paulo – 1968.

sábado, dezembro 16, 2006

Lembre-se de Si

Depois de uma longa viagem, Nasrudin deu de cara com uma turbulenta multidão em uma grande cidade. Nunca havia visto um lugar tão grande e lhe confundiam a cabeça todas aquelas pessoas amontoadas pelas ruas.

"Num lugar assim", refletia Nasrudin consigo mesmo, "fico imaginando como é que as pessoas fazem para não se perderem de si mesmas, para saberem quem são."

Então, pensou:

"Devo recordar-me bem de mim, caso contrário poderia perder-me de mim mesmo".

Mais que depressa, procurou uma hospedaria.Um sujeito brincalhão estava acomodado numa cama próxima àquela reservada a Nasrudin. O Mullá pensou em fazer a sesta, mas estava diante de um problema: como encontrar novamente a si mesmo ao acordar. Confidenciou seu problema ao vizinho.

"Muito simples", disse o tal brincalhão. "Aqui tem um balão. Basta amarrá-lo na sua perna e ir dormir. Quando acordar, procure o homem com o balão e esse homem será você."

"Excelente idéia", disse Nasrudin.

Algumas horas depois, o Mullá acordou. Procurou o balão e o achou amarrado na perna do vizinho brincalhão.

"É, esse aí sou eu", pensou.

Então, apavorado, começou a sacudir o sujeito:

"Acorda! Algo aconteceu, do jeito que eu imaginei que aconteceria! Sua idéia não foi boa!"

O homem acordou e perguntou qual era o problema. Nasrudin apontou-lhe o balão.

"Pelo balão, posso dizer que você sou eu. Mas se você sou eu, pelo amor de Deus, quem sou eu?"

Corpo-Alma-Espírito

O Espírito é a raiz do ser, ou seja, é Deus. Na Bíblia vemos a palavra "espírito" sendo utilizada em referência a Deus: "o Espírito sopra onde quer".

A alma provém do espírito e está relacionada ao ser manifestado mais em sua relatividade. A imagem que me vem é a do Sol (espírito), o raio do sol (alma) e a terra (corpo). O raio do sol é o que ilumina a terra, pois o sol não pode vir à terra iluminar, sob pena de fulminar todo o planeta. Lembro-me, inclusive, neste momento, de um verso de Rilke que diz que "todo anjo é terrível"! Ou seja, que a majestade espiritual é muito forte.

O espírito anima (anima, a palavra latina que originou a palavra alma, que significa sopro, se não estou enganado) o corpo através da alma, que é a ponte que liga matéria e espírito. Na formação da alma surgem dois aspectos: A alma superior (aspecto mais ligado ao espírito) e a alma inferior (aspecto mais ligado à matéria, ao corpo). Esta, a alma inferior (também chamada psique inferior), está muito conectada àquilo que pensamos, sentimos e fazemos. Por esta razão que as religiões fazem todo o possível pra que as pessoas estejam equilibradas neste aspecto, pois a subida delas a estados superiores do Ser vai depender de uma psique inferior equilibrada, sem contradições. A alma, portanto, é o campo no qual devemos trabalhar para o aperfeiçoamento.

A alma superior é a antena da essência, ou seja, é através dela que o homem conhece a divindade. Se a Divindade se apresenta ante o homem, a percepção dEla vem através da psique superior.

segunda-feira, novembro 27, 2006

À Bacante

Um suave poema tocou em minha calma
Um murmúrio de asas e trombetas
Assinalando as portas abertas
que existem em minha alma.

Será que quando as mexo e toco
Em tua consciência tu despertas
e te colocas em aguda atenção
por estes murmúrios que provoco?

Sou um aventureiro buscando a rota
pelo teu desconhecido oceano
e pela senda intocada de teu peito...

Sou um pescador que não aporta
quando reconhecido algum engano,
ou quando tenho amor em meu leito!

* Achei este poema em meus arquivos. Pelo estilo, acho que é meu. Se alguém tiver prova em contrário, que ma forneça... :-)

quinta-feira, novembro 23, 2006

O Autoconhecimento

Os acontecimentos em nossas vidas vinculam-se a nossos processos mentais, ou seja, que os acontecimentos externos são ecos de nossa vida interior. Muitas vezes sofremos revezes e não sabemos entender que tais situações aparentemente adversas resultam do equilíbrio que a vida tenta imprimir em nós.

Muitas vezes, também, coisas aparentemente ruins neste plano horizontal são interpretadas como desgraças, e a velha pergunta ("por que coisas ruins acontecem com pessoas boas"?) vem a nossos pensamentos.

Contudo as coisas acontecem por estarem enraizadas em nossas mentes. Se buscarmos "A", não vem "B"; se pensarmos e quisermos "A", e falarmos para os outros que queremos "B", vem "A", pois fixamos nossos corações em "A". Neste último ponto as pessoas dizem que a vida é uma incerteza, e alguma razão existe para isso: Numa existência cumulada de variedades e dispersões, encontrar algo firme parece-nos tarefa impossível.

As pessoas pensam: "foi a mente que nos traiu", mas não é a mente que nos trai, somos nós que, não nos conhecendo suficiente pra enxergar o que somos verdadeiramente, não entendemos nossos processos mentais. Muitas vezes a mente está dizendo uma coisa que não somos capazes de escutar, devido à nossa própria ignorância de nós mesmos. Aí, então, este processo mental vem à tona, aparentando ser uma "surpresa", mas as raízes dessa "surpresa" já estavam estabelecidas pelos nossos processos mentais já havia algum tempo.

Porém, quando começamos a entender como a mente age, começamos a perceber que nossa vida é construída conforme nossos pensamentos, sentimentos, palavras, ações. É necessário, portanto, aprender a conhecê-la, pra que não existam surpresas desagradáveis. Como diz o ditado: "quem plantou abacaxi, não pode colher mamão".

Mas existe algo como conhecer a mente? Isso é tema pra uma reflexão mais profunda, pois como o instrumento pode se utilizar para trabalhar a si mesmo? Como o martelo pode se bater? Ou a chave se apertar? Na realidade precisamos conhecer o "Si Mesmo", que é a raiz metafísica da mente. E conhecer a si mesmo demanda uma diversidade de trabalhos interiores e exteriores, que, quando vemos o caminho a ser trilhado, já perdemos o fôlego (uma outra perspectiva, mais zen: se não existe o espelho, onde se acumulará a poeira? Se não existe caminho, como caminhar?).

Quem conhece a "Si Mesmo" conhece o seu Senhor. Esta é a única tarefa que devemos realizar perfeitamente em nossas vidas. E apesar dos contrastes que tal processo envolve (tristezas e alegrias; dores e prazeres), nós devemos entender que só apreciamos o valor da luz, comparando-a com sombra. O Baghavad Gita diz o seguinte:

"Aquele que não se apega, que é amigo sincero de todos os seres vivos, que não tem senso de posse; que tem a mesma atitude na tristeza ou na alegria, que é sempre determinado, tendo a mente e o intelecto harmonizados comigo, é muito querido a Mim".

Portanto, a questão não é prazer ou dor; tristeza ou alegria; o autoconhecimento é o caminho que se trilha para se transcenderem todas as coisas.

sábado, novembro 18, 2006

Amor e Justiça

"Quando se comportam com humanidade, até aqueles que se proclamam ateus, respeitam a essência de cada religião: o amor. O amor preenche todas as tarefas humanas. Sem o amor, a justiça é uma espada; com o amor ela é abraço fraterno. O amor é a síntese da Lei". (Oscar A. Romero)


A Justiça e o Amor têm que estar equilibrados dentro de nós. Amor e Justiça são como que dois lados de uma balança, daquelas antigas de dois pratos: a mais sensível oscilação de um lado já interfere no outro também. Está claro que tanto um quanto outro conceito são, dentro de nosso ponto de vista, os que utilizamos para demonstrar uma realidade deste plano em que nós vivemos, o plano material, pois na Divindade, Amor e Justiça estão unidos, inseparáveis. Contudo, com nossa tendência para a dualidade, nós os separamos em nossos corações, provocando então um desequilíbrio que antes não existia. O conhecimento antigo entendia que o amor sem justiça transformaria o homem num fanático, e que a justiça sem amor transformaria o homem num tirano.

Portanto, quando na citação acima o sr. Oscar A. Romero diz que sem o amor a justiça é uma espada, é porque ela fere, porque é tirana e não enxerga através do amor, pois o Amor é quem dá visão à Justiça, e é a Justiça que dá a prática, a base, a sustentação neste plano terreno ao Amor para que Ele se cumpra, e o plano de Deus aconteça em nosso Universo. Portanto, se formos pegar o conhecimento chinês, Justiça é Yin, Amor é Yang. Quando equilibrados são a perfeição.

Quanto à dizer que o “amor é a síntese da lei”, o Sr. Oscar A. Romero, pelo que podemos entender, ele nos remete a uma união entre Céu e Terra. Primeiro, para abordar com mais acerto, devemos examinar superficialmente o que quer dizer “síntese” na frase mencionada (qual dos sentidos desta palavra que está sendo utilizado na frase).

A síntese não é um agrupamento de idéias, tal qual uma colcha de retalhos. A síntese é a fusão de idéias que, apesar de aparentemente díspares quando apanhadas em separado, formam, assim que fundidas, um todo coerente e harmônico. Ou seja, a síntese busca encontrar a essência (e sempre descobre que toda a essência nos remete a Deus) e, através da essência, une tudo em um todo congruente.

Então, aquele que faz a síntese reconhece atrás das coisas a raiz oculta que elas trazem consigo, ou seja, a raiz divina e espiritual, a assinatura de Deus. A partir do momento em que alguém tem uma profundidade espiritual tamanha pra enxergar a Realidade das coisas, que Ela não provém deste plano mas de outro superior, é capaz de saber como encaixá-las num todo harmônico e efetuar a síntese.

Outra coisa que se costuma confundir é Lei e justiça. A Lei é a raiz da justiça. Justiça é aplicação, ação, prática da Lei, sendo esta a origem da justiça.

Neste caso, quando o autor diz que o Amor é a síntese da Lei, ele está se reportando a questões superiores à justiça e ao amor tal como mencionamos logo no princípio, pois a justiça e o amor neste plano em que vivemos, conforme dissemos, são entendidos como uma dualidade. Este Amor que ele menciona, que entendemos de ordem superior, é um aspecto de Deus que neste plano reconhecemos através do amor pessoal, concretizado no amor ao próximo. E, somente como forma de esclarecimento, alguns homens mencionam Deus de uma forma não personalista como "A Lei que a tudo e a todos rege", ou seja, como o ponto central através do qual toda a criação tem seus parâmetros.

Quando existe o Amor, Deus está presente. Quando existe o Amor, aquele que ama, na realidade ama a Deus. E quando ama, percebe que quem ama através de si mesmo é Deus.

Então, a partir do momento em que reconhece a essência, realiza a síntese em si mesmo. Por este motivo o amor é a síntese da Lei (da mesma forma com que a justiça também é a síntese da Lei!), porque a Lei (O Grande Arquiteto do Universo: Deus), em sua totalidade e glória ainda está inacessível a nós. E uma das características da síntese é ser uma espécie de resumo, pois a fusão tira o caráter de multiplicidade (muitas coisas separadas) e consegue a Unidade, que é um atributo da Divindade.

sexta-feira, novembro 10, 2006

O VALOR DE UM TESOURO ESCONDIDO

Vivia na China um sacerdote rico e avarento. Amava jóias e as colecionava, acrescentando constantemente novas peças ao seu maravilhoso tesouro escondido, que guardava a sete chaves, oculto de olhos que não fossem os seus. O sacerdote tinha um amigo, que um dia o visitou e manifestou interesse em ver as jóias.

- Seria um prazer tirá-las do esconderijo, e assim eu poderia olhá-las também.

A coleção foi trazida, e os dois deleitaram os olhos com o tesouro maravilhoso por longo tempo, perdidos em admiração. Quando chegou o momento de partir o convidado disse:

- Obrigado por me dar o tesouro.

- Não me agradeça por uma coisa que você não recebeu - disse o sacerdote. - Como não lhe dei as jóias, elas não são suas, absolutamente.

- Como você sabe - respondeu o amigo. - senti tanto prazer admirando os tesouros quanto você, por isso não há essa diferença entre nós como pensa. Só que os gastos e o problema de encontrar, comprar e cuidar das jóias são seus.

O AMOR (EM TRÊS ATOS)



I - Espiritual

Eu sou o caminho para a Unidade
Onde o peregrino encontra a Paz.
Trilhando nesta via da Verdade,
Encontrarás Deus mais e mais.

Eu sou o lenitivo da opressão,
Que faz aplacar toda a dor
Daquele que me pede guarnição:
Por isso que me chamo Amor!

O que bebe em minha Fonte
Muito além do horizonte
Obtém de mim a Eterna Vida.

O que me tem no coração,
De Deus recebe a salvação,
E a Alma a Ele fica unida.


II - Psíquico

Quando duas almas se encantam
E ambas são unidas na Eternidade
A Natureza Divina toda canta
Pois estão mais perto da Verdade.

Beleza há para todo o ser amar
Na busca da Divina Perfeição.
Para isso, é preciso aperfeiçoar
Cada vez mais o seu coração.

Pois todo coração é uma taça
Em busca da beleza superior
Que é a lei de Deus quando cumprida.

E, por mais que cada um faça
Só o que se realiza no amor
Realiza em si a missão de toda vida.


III - Físico

Beleza há quando dois corpos se conhecem
E a Eternidade vem habitar em seu leito.
É a hora que todos amantes não se esquecem:
O coração pulsa mais forte dentro do peito.

Esta forma singela de nosso amor expressar
É a forma mais bela que Deus criou para nós.
Um corpo encontrando outro para amar
Expressa Sua Vontade: não fiquemos sós.

Dizer-te, portanto, que te amo neste momento,
E que em todos os níveis estou pleno deste Amor,
Pode ser que para ti isto não signifique nada.

Mas Deus não quer um filho seu no tormento
Pois fala a meu coração: “Filho meu, sentir esta dor
Significou colocar o pé nesta Divina Estrada”.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Minha principal busca...

Minha principal busca é o autoconhecimento... A maior parte de minha vida foi direcionada neste sentido: conhecer a verdade que está em meu coração. As ingerências da Vida são os adjuvantes necessários que me levam a esta meta.

Vejo que eu sou um oceano, e que no fundo dele tem uma pérola... esta pérola é meu próprio coração. E aquilo que dá valor a esta pérola chama-se “Amor”, sendo o “Amor” sinônimo do conhecimento do coração. O dia em que tiver fôlego suficiente para mergulhar neste oceano e buscar esta pérola de verdade (que está escondida em mim), finalmente terei chegado a meu destino.

Entendo, com isso, que não se devem traçar planos pré-estabelecidos por mim, mas que devo deixar que a vida trace meus planos, buscando, dentro do possível, estar de acordo com minha própria natureza. Ou seja: uso meu discernimento para escolher o que eu devo fazer dentro incomensurável riqueza da vida. O único trabalho que tenho é que este discernimento esteja aguçado, ou seja, que ele seja capaz de tirar vendas, véus e máscaras que impedem com que a Realidade seja encarada.

Não falo tudo que penso...

Eu não falo tudo que penso. Utilizo, antes, de uma peneira mental para dizer as coisas. Dentro de meu entendimento, nós devemos chegar ao coração das pessoas para que nossas idéias sejam aceitas, ou seja: há a necessidade de se comunicar, trazer à tona algo em comum.

A simples imposição de nossas opiniões não faz com que exista transformação; nem interna (a de si mesmo), nem externa (a do próximo). Quem assim age cria uma fileira de inimizades e mal-entendidos.

Dentro de minha vida, magoei muitas pessoas sem necessidade devido a uma arrogância, fruto do orgulho. Agora, tenho sido mais comedido no dizer o que penso, porque busco um destino certo, tendo como alvo o coração de quem me escuta.

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Minha principal busca é o autoconhecimento... A maior parte de minha vida foi direcionada neste sentido: conhecer a verdade que está em meu coração. As ingerências da Vida são os adjuvantes necessários que me levam a esta meta.

Vejo que eu sou um oceano, e que no fundo dele tem uma pérola... esta pérola é meu próprio coração. E aquilo que dá valor a esta pérola chama-se “Amor”, sendo o “Amor” sinônimo do conhecimento do coração. O dia em que tiver fôlego suficiente para mergulhar neste oceano e buscar esta pérola de verdade (que está escondida em mim), finalmente terei chegado a meu destino.

Entendo, com isso, que não se devem traçar planos preestabelecidos por mim, mas que devo deixar que a vida trace meus planos, buscando, dentro do possível, estar de acordo com minha própria natureza. Ou seja: uso meu discernimento para escolher o que eu devo fazer dentro incomensurável riqueza da vida. O único trabalho que tenho é que este discernimento esteja aguçado, ou seja, que ele seja capaz de tirar vendas, véus e máscaras que impedem com que a Realidade seja encarada.

Uma nota explicativa sobre Spoon River

"Spoon River é uma cidade americana fictícia, no século 19, e sua "antologia" [escrita por Edgar Lee Masters] contém, na verdade, relatos póstumos de 243 habitantes. Eles contam suas histórias e, na condição de mortos, podem usar da mais crua sinceridade. A cada personagem corresponde um poema, batizado com seu nome: "George Trimble", "Dora Williams", "Paul McNeely". Para o leitor, é como se ele visitasse o cemitério de Spoon River e lá ouvisse os relatos ou os lesse nas inscrições dos túmulos."
"Em certos casos, a leitura se transforma numa espécie de jogo, pois vários dos defuntos-narradores (eles seguem o esquema do Brás Cubas!) mantiveram em vida relações de negócio ou parentesco. Então, é fácil imaginar: todos os podres aparecem. Para dar mais sabor à trama, em Spoon River, quase todos os finados levaram para o túmulo um segredo associado a alguma violência ou indignidade cometida ou sofrida durante a vida."

Carlos Machado (extraído do site: http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet006.htm )

O Ateu da Aldeia (Edgar Lee Masters)

Ouvi-me, jovens discutidores da doutrina
da imortalidade da alma,
eu, que aqui jazo, era o ateu da aldeia.
Loquaz e polêmico, versado nos argumentos dos infiéis.
Mas no curso de uma longa enfermidade,
enquanto tossia até arrebentar,
li os Upanishades e a poesia de Jesus,
que acenderam uma tocha de
esperança e de intuição
e de desejo, que a Sombra,
me guiando rapidamente através
das cavernas de trevas,
não poderia extinguir.
Escutai-me, vós que viveis nos sentidos
e só através dos sentidos:
A imortalidade não é uma dádiva.
A imortalidade é uma obra;
e só aqueles que lutarem com denodo
conseguirão obtê-la.

A última lápide de Spoon River

A Edgar Lee Masters


Trabalhava na região de Spoon River
e cria ser em todos os desejos insaciável.
Estrangulava as almas até que abdicassem
de suas vozes e suas dores.

Acreditava ter uma fonte inextingüível nas mãos.
Mas as almas colhidas foram abandonando meu celeiro
em direção a alguma parte mais eterna e inefável,
como árvores fortes crescendo nas campinas
roubando-me o prazer que é
o da solidão que as almas não podem conter.

Spoon River foi-se diluindo na vegetação
onde as florestas abandonam suas fronteiras
e o algodão começa a se acomodar nas urzes.
Spoon River foi minha última colheita
em sua solitária loucura e abnegação
enquanto suas ruas sorriam e me diziam:
“Matéria no tempo... matéria no tempo...”

Ah! Agora que estou só
peço a todos perdão pela minha natureza.
Só, junto a este campo de ervas
onde ruínas e lápides apascentam.

Que me perdoem o desconhecido e o ateu;
os MacNelly, os Meyer, os Willians,
enfim, peço a todos que me perdoem o espírito
ainda que se lhes pareça vão e incompreensível.

Assim mesmo, deposito o que me resta
sobre estas ruínas de campas,
esperando pelo Juízo-Final,
pois sei que a Misericórdia Divina é mais ampla,
e o que o homem não soube compreender,
Deus o saberá.

Para Liza Hite


" Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo:
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim."
(Sá de Miranda)

Sinto-me terrivelmente iluminado
Quando penso em Ti
Refugiando-Te de/em meus interiores.

Mantenho minhas portas fechadas,
Porém, utilizas das janelas
Quando a casa me vens visitar.

Pela fechadura, apenas o pó dos relógios:
passado e futuro,
chave do que sou, horas
em que tenho insistido meu cofre interior
e meus necrológios.

Pela porta apenas o trivial:
Quando vens habitar-me,
Sou-Te um trono irreal,
Não o banco espancado
Que ocupa meu quintal...

Logo, não mais portas ou janelas.
Apenas, a árvore constante chamada a frutificar,
de sombra meiga e singela
que me reduz a Teu mistério e me refrigera.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Ainda sobre a comunicação...

O não entendimento não significa necessariamente uma confusão.

Não entender uma coisa significa não conseguir ler a mensagem, ou seja, as informações e o conhecimento que se tem não são suficientes para a decodificação desta. Quanto à compreensão ela se refere não mais à superfície da mensagem, que é como o código funciona, mas à sua natureza simbólica.

Dentro deste sentido, a mensagem tem um valor. Quando alguém que tenha recebido a mensagem (seja de que forma for: escrita, oral, visual, etc.), consegue absorver os valores que a mensagem desperta, então diz-se que esta pessoa “compreendeu”. Sabe-se que o valor não pertence necessariamente à mensagem, mas aos homens. Sejamos mais claros: Se alguém diz a outrem “eu te amo”, as duas pessoas estão se comunicando. O entendimento é claro e evidente, agora a compreensão ou esbarra ou é impulsionada pelos valores internos de cada um. Para uns, dizer “eu te amo” significa uma atração física; para outros a mesma frase significa uma purificação do caráter.

Quanto à confusão, no caso, é fundir dois entendimentos sem retirar deles uma necessária síntese. A confusão, neste caso, significa desorientação. Ou seja, a mensagem atinge o campo psicológico, encontrando no interior do receptor um entendimento pré-estabelecido, sem ter força suficiente para se tornar uma nova forma de compreensão pessoal, fazendo com que o receptor mantenha duas fortes tendências de pensamento. A mensagem atinge o campo psicológico quando mexe com os sentimentos, gerando um histórico emotivo, seja de repulsa, de medo, de angústia, ou vice-e-versa: de alegria, de conforto, etc.

No entanto quando existe confusão, existe desorientação. Quando existe não entendimento, não necessariamente existe confusão. Por quê? Porque a mensagem não atingiu a parte mais profunda do ser, não mexeu com as verdades pessoais, não atingiu o centro do ser humano.

Neste caso, pode haver quanto ao receptor da mensagem uma paciência no sentido de esperar um momento melhor para absorver a mensagem mesma. No entanto, quando existe confusão, a mensagem entra de forma desordenada, juntando informações desconexas, sem conseguir chegar a um ponto de equilíbrio.

Uma mensagem causa confusão quando é enviada com uma energia não ordenada: da forma errada, no momento errado, etc. Dentro da mesma perspectiva, a pessoa que emite a mensagem, se tem clareza interior, sabe distinguir, necessariamente o momento certo e a forma certa de encaminha-la, emitindo junto com a mensagem a energia necessária para seu entendimento e compreensão. Agora, se a mensagem sai truncada, o responsável por isso é seu emissor, não o receptor.

Se o emissor não está tendo clareza suficiente no enviar a mensagem é porque não consegue enxergar de forma clara o que acontece em seu coração, ou não consegue enxergar o coração do receptor, fazendo com que os corações não se comuniquem da forma correta.

Quando os corações se comunicam da forma correta poucas palavras são suficientes para se chegar ao entendimento, e pouco tempo para se chegar à compreensão. Quando os corações não estão se comunicando da forma correta, fala-se muito mas o entendimento não é recebido, ou é recebido de uma forma truncada, o que faz com que o receptor tenha confusão.

sábado, outubro 14, 2006

Um poema de Jorge Carrera Andrade


Amor é mais que a sabedoria
é a ressurreição, a segunda vida.
O ser que ama revive
ou vive em dobro.
O amor é a síntese da terra,
é luz, música, sonho
e fruta material
que saboreamos com todos os sentidos.
Oh, mulher que penetras minhas veias
como o céu nos rios!
Teu corpo é o país de leite e mel
ao qual recorro sedento.
Me abrevio em teu semblante de água fresca,
de riacho primordial
em minha jornada ardente até a origem
do manancial perdido.
Mineiro do amor, cavo sem trégua
até achar o filão do infinito!

Do outro lado, apenas o silêncio...

Para os que gostam de poemas românticos e juvenis, aqui vai um material ao gosto comum. Um pouco cheirando a melaço, mas achei, ainda assim, interessante. Quando foi escrito? Não sei, mas faz muito, muito tempo... (rs). Tomei apenas a liberdade de corrigir algumas coisinhas, senão seria insuportável!

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Do outro lado, apenas o silêncio.
Tal qual o arqueiro que não vê seu alvo
Abrindo as cortinas da noite,
Assim envio estas palavras.

No canto da memória,
Uma imagem me diz da tua face.
Recordando-me de ti,
Busco-me no alento de te encontrar.
Dentro da noite,
Apenas um silêncio interior...

Pode o amor em amizade tornar-se?
Como poderia então desprezar
A raiz que se aconchegou em mim
E fez-se fruto de meu sentir?
Como subtrair-me de minha entranha
Carregada toda ela de ti?

A noite adentrou meu espanto, e seu vento
Transfigurou as estrelas de meu firmamento.

Dentro da memória, a vastidão de mim
Preenchida pela tua recôndita vastidão.

Tanto coração ainda por conhecer,
Tanta geografia ainda por sentir,
E a noite estendeu seu triste manto
Sobre mim.

Em noites como essa, estavas em meus braços.
Como não haver sucumbido a tuas palavras?
Como não haver amado o corpo onde vives
Ou este coração onde ainda habitas?

Quisera que permear-me em teu coração,
Mas o que temia, aconteceu:
O amor tornou-se silencioso em tua boca,
E, quem sabe, já não é meu.

Sentimentos, pensamentos e ações.

As questões interiores devem ser tratadas com urgência, principalmente no que concerne a sentimentos e pensamentos. No entanto, existe a necessidade de primeiro saber como enfrentar seus defeitos. Aquele que tem coragem de enfrentar-se deve buscar prestar atenção em três termômetros que funcionam como sentinelas do caráter: sentimentos, pensamentos e ações.

Deve-se levar em conta, contudo, que ações provêm, na maior parte das vezes, de pensamentos e sentimentos*. Portanto, estes funcionam como raízes daquelas. Tomando isto como base, óbvio que não será transformando as ações em primeiro lugar que se terão mudados os sentimentos e pensamentos, mas ao contrário, pois o mais profundo domina o mais superficial.

Por este motivo, qualquer mudança externa somente acontecerá depois de uma mudança interna, ainda que tênue. Contudo, não se pode desprezar as atitudes pois, quando regidas por uma vontade consciente, elas próprias funcionam como adjuvantes neste processo de transformação interna.

Pode-se ter como exemplo algo trivial: um “alcoólatra”** decide transformar-se e, para iniciar esta transformação, pára de beber. Esta abstenção de bebidas alcoólicas, com certeza funciona como poderoso colaborador na transformação que há de vir. Outro exemplo: buscando ter um conhecimento mais aprofundado de si mesmo alguém, por este motivo, começa a meditar e, para iniciar a meditação, inicia fazendo exercícios respiratórios. Estes exercícios são básicos para todo um processo meditativo, principalmente quando se está iniciando.

Ao se examinar com maior profundidade a razão de que estes processos fisiológicos colaborem com o processo de transformação interna, tem-se como resposta que o homem é a ponte entre céu e terra. Deve unir estes opostos no âmago de seu coração, realizando, com isto, um processo transformador e transcendente. E iniciar esta transformação através de um processo fisiológico equivale a construir um berço para que a verdade possa nascer em seu interior, ou melhor, florescer.

Em sendo assim, quando se emite uma mensagem consciente para o corpo se está, na realidade, unindo céu e terra dentro de si: o céu dos influxos espirituais e a terra da ação física consciente. E esta ação é, na realidade, o correspondente reflexo do Céu no corpo, a transcendência dos processos habituais, processos estes que levam as pessoas a se acomodarem numa forma de percepção.

E dentro deste mesmo sentido, quando se faz a conexão das coisas superiores com as inferiores, tendo aquelas como fontes destas, no momento em que se conecta terra e céu, conhece-se, realiza-se: A mensagem Divina que cada um carrega em seu interior desde quando nasce começa a ser lida. E a busca deste conhecimento, desta realização é, na verdade, o motivo de se estar vivo. Tudo gira em torno deste pivô. Todas as coisas falam desta busca, ainda que não se entenda a linguagem de tudo quanto há.

(*) Dizemos na maior parte das vezes porque, quando alguém tem um grau de realização maior, as ações começam a vir do Superior, sendo o indivíduo apenas um veículo de manifestação (como Paulo disse: “Já não sou eu quem vive: Cristo é quem vive em mim”).

(**) Dentro de meu entendimento, um homem sempre será um homem; o “alcoólatra” é apenas uma percepção enganada da realidade interna daquele indivíduo.