quarta-feira, outubro 04, 2006

Quem é o aprendiz? (1)


Quando eu tinha cerca de dezoito anos, ouvi pela primeira vez a frase: “quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece”. Esta frase é muito utilizada nos meios ocultistas, e até o presente momento não sei sua origem. Contudo, tenho a observar algumas coisas que percebi enquanto ouvinte daqueles que a expressavam. Segundo essas mesmas pessoas, em sua maioria, o discípulo é aquele que já está preparado para a transcendência, que lhe será dada pelo Mestre que aparece. Ou seja, alguém, para ser um discípulo deve conhecer uma gama de coisas tais que, ao receber o Mestre, este apenas vai lhe dar alguns breves retoques nestes conhecimentos adquiridos.

No entanto, depois de diversas vezes em que ouvi esta frase, um dia percebi uma nova perspectiva dela, qual seja: “Quando o Discípulo está pronto, o Mestre aparece”... Neste caso, quem é o discípulo? Discípulo é aquele que se dispõe a estudar a matéria que se lhe é apresentada, ou melhor, que se dispõe a estudar e vivenciar o que se lhe apresenta. Em sendo assim, o discípulo (ou o aprendiz) é aquele que se dispõe a aprender ( conforme a origem etimológica da palavra “discípulo”, ela provém do latim discipulus e este de discere ou disco (aprender), ou seja, o que aprende (posição ativa diante do ensinamento) ou que se deixa ensinar (posição passiva).

Mas a disposição de aprender, de ser um aprendiz, de se portar como um discípulo, tem um ato prévio extremamente importante: o de se esvaziar. Porque, segundo o que pude compreender, se o homem não está vazio de seu ego, de seus pseudo-conhecimentos, de suas insatisfações, na realidade ele não está preparado para o aprendizado. Se o cálice está cheio, como poderá ele reter o conhecimento? Onde o guardará? Se o coração está prenhe de ignorância, como poderá conceber em seu interior a verdadeira linguagem do coração? Portanto, é de total importância que o discípulo esteja vazio para que se possa preencher pelo conhecimento reparador de um mestre.

E este esvaziar-se, esta morte para uma fase de sua vida torna-se, na verdade, um nascimento para o aprendizado (já que, segundo uma perspectiva espiritualizada, a morte não existe enquanto fim em si mesma, mas apenas como passagem entre estados). Esta passagem do mundo profano para o sagrado requer o desapego intenso das coisas que o prendem nas perspectivas mundanas. A ótica deve ser mudada, e desconsiderado não aquilo que aprendeu até então, mas a perspectiva adotada para compreender o ensinamento. Ou seja: Tudo acontece na simplicidade do interior, simplicidade que existe, veja-se bem, quando despido das coisas materiais e embebido da espiritualidade.

Concluindo, o início do aprendizado começa quando nos entendemos ignorantes. E no momento que nos reconhecemos não sabedores, entramos em contato com a verdadeira fonte do conhecimento, a luz transformadora do ser, o verdadeiro Intelecto: Deus.

terça-feira, outubro 03, 2006

Mais sobre a importância de se comunicar

Interessante que na semana passada eu falei sobre a "IMPORTÂNCIA DE SE COMUNICAR". Hoje recebi um texto do poeta Sufi (árabe) Rumi. Vejam que interessante (será que estou plagiando as idéias dele? rs):

(....................)

ENCONTRO DE ALMAS

Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.

Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: "toca",
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

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Um abraço a todos os visitantes!

sábado, setembro 30, 2006

O HOMEM E A MULHER (Victor Hugo)

“O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.

O homem é o cérebro.
A mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz,
o coração produz amor.
A luz fecunda,
o amor ressuscita.

O homem é forte pela razão.
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence,
as lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos.
A mulher de todos os martírios.
O heroísmo enobrece;
o martírio sublima.

O homem é um código;
a mulher é um evangelho.
O código corrige;
o evangelho aperfeiçoa.

O homem é um templo,
a mulher é um sacrário.
Ante o templo nos descobrimos;
ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem pensa.
A mulher sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano.
A mulher é um lago.
O oceano possui a pérola que adorna;
o lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa.
A mulher o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço;
cantar é conquistar a alma.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra
e a mulher onde começa o céu”.

Convivência (desconheço o autor)

Durante uma era glacial, muito remota, quando parte do globo terrestre esteve coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram indefesos por não se adaptarem às condições do clima hostil. Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, a juntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro.

E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se, por não suportarem mais os espinhos de seus semelhantes. Doíam muito ...

Mas, essa não foi a melhor solução: afastados, separados, logo começaram a morrer congelados. Os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos recíprocos. Assim, suportaram-se, resistindo à longa era glacial. Sobreviveram.

sexta-feira, setembro 29, 2006

A importância de se comunicar...

Comunicar é um fator extremamente importante. Quando temos em mente que a forma com que nos relacionamos com o mundo é uma comunicação, ou seja, que tanto a porta para o crescimento interior, quanto a que existe para a destruição, está na forma com que nos comunicamos, vemos o quão irrelevante tem sido para nós a verdadeira comunicação.

A etimologia da palavra, ou seja, sua origem, nos reporta à idéia de “algo em comum”. Então vejamos: “lat. communìco, ás, ávi, átum, áre 'pôr em comum, dividir, partilhar, ter relações com, comunicar'”. Dentro deste sentido, existe a necessidade de, primeiro, termos algo em comum para que se estabeleça qualquer comunicação. Claro que um idioma é o canal necessário onde este “algo em comum” une duas consciências. O idioma une onde a incompreensão desune. Devemos ressaltar que um idioma não necessariamente, neste caso, deve ser formado de palavras, mas notadamente de idéias, ou melhor, de símbolos através dos quais estas idéias se expressam.

E, neste caso, existe uma gramática utilizável, que ordena a natureza do idioma e torna possível ele ser inteligível para todos que se comunicam. E pode ser que esta gramática somente exista para aqueles que entraram em processo de comunicar-se.

Por este motivo, alguém pode dizer, como já disse o poeta Jaime Sabines: “(...) as melhores palavras do amor estão entre duas pessoas que não se dizem nada”. E mais pra frente, neste mesmo poema (Espero curarme de ti) o poeta escreve: "Deve-se queimar também esta outra linguagem lateral e subversiva do que ama. (Tu sabes como te digo que te quero quando digo: "que calor faz", "me dê água", "sabe dirigir?", "fez-se de noite"...Entre as pessoas, ao lado de suas pessoas e das minhas, eu te disse "já é tarde", e tu sabias que eu dizia "quero-te"). Isso quer dizer que a linguagem pode ser a usual entre todas as pessoas, mas a comunicação se estabelece apenas quando dois seres intrinsecamente possuem algo que os une, pois a verdadeira comunicação se dá através do coração.

Vemos contudo pessoas que se dizem palavras, permanecendo, porém, incomunicáveis umas às outras. As consciências trancadas... Corações sem encontrar o contato necessário... E assim a vida vai passando e as pessoas presas em suas conchas, querendo mudar umas às outras, insistindo que o melhor idioma é o seu, desconhecendo, contudo, que suas palavras funcionam como um martelo na vidraça do outro.

É necessário dizer, também, que existem aqueles que se comunicam através do coração. Que apenas o movimentar dos olhos é o suficiente para se expressar além da insipidez do cotidiano. Que o encontrar coisas em comum trata-se, na realidade, do verdadeiro crescimento, onde os preconceitos são abandonados em benefício do próximo, e a pedra bruta vem, devagarinho, sendo lapidada. Pessoas em que sua comunicação se estabelece pelo Alto, porque sabem cantar em suas palavras a harmonia do superior; e quando dizem “hoje eu acordei cedo...” (ou qualquer coisa do gênero que sob outras perspectivas seria algo banal), sua mensagem vem carregada de vibração e essência. Para estes não existem barreiras, porque a melhor linguagem que existe para se comunicar é a que encontramos no coração do próximo.

Portanto, é uma ilusão dizer que estamos na era da comunicação, pois a verdadeira comunicação acontece na profundidade do caráter, enquanto as pessoas se movimentam na superfície. É improvável que qualquer comunicação se estabeleça entre duas pessoas que não se transformaram. As arestas impedem acharem algo em comum. A miopia não permite ver as semelhanças. O coração comunicativo é o azougue, que se funde no Ser Universal. Comunicar (com-UNI-car...) verdadeiramente une.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Divan de Shams de Tabriz (Rumi)

Meu verso é como o pão do Egito:
a noite passa sobre ele e já não podes mais comê-lo.
Devora-o enquanto está fresco,
antes que o recubra a poeira do deserto.

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Se te apegas ao mundo,
como um sonho ele voa;
se foges, o destino cruel
cerca o espaço em que temoves:
nem calor nem frio
es capaz de reter,
e tudo que para ti floresce
em breve há de fenecer.

( .... "traduzo aqui o poema em que Goethe parafraseia Rumi, provavelmente a primeira homenagem - e ainda a mais ilustre - de um poeta ocidental à arte deste. O leitor poderá avaliar até que ponto conseguiu o poeta de Weimar captar a estética e a espiritualidade de Rumi, constrastando-o com os poemas do Divan de Shams de Tabriz que apresento.)

A Morte e o Amor

Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o "eu", esse tenebroso déspota.
Tu o deixas expirar no negro da noite
e livre respiras à luz da manhã.

Tradução: José Jorge de Carvalho

segunda-feira, setembro 25, 2006

CONTRASTES (2)

Hoje a vida me acordou mais cedo. Algo de juventude se segurou em meus pulmões, e as palavras, apesar de suaves, brandiam força e expectativas. Talvez pelo rigoroso plano que o Superior me reservou devido a minhas atitudes grotescas. Talvez por entender que não sou uma pessoa intrinsecamente má, apesar de carregar algumas maldades dentro do peito. O que importa, entretanto, é que existe, afinal, um alento.

(.......)

É muito comum hoje vermos as pessoas inconformadas com seus sofrimentos; ou melhor: inconformadas não, mas revoltadas! Revoltadas com sua situação, revoltadas com o próximo por estarem do jeito que estão. Revoltadas pelas ações que a vida insiste em perpetrar contra elas, em reflexo às próprias ações que elas fazem contra o amor, contra a lealdade, contra a fidelidade, etc.

Fazendo uma análise desapegada de emoções, o que posso dizer, senão que tenho, assim como essas pessoas, me decepcionado a mim mesmo? Que minhas potencialidades e minhas ações, de forma alguma condizem umas com as outras. Que insisto em estar aquém de mim mesmo. Mas, o que é pior, é que na maior parte das vezes não se consegue enxergar alguém que não esteja aquém de seus predicados, alguém que não sofra o medo extático de se proporcionar um vôo para além.

E por que as pessoas insistem em continuar com os padrões, insistindo em sobreviver quando podiam ser felizes? Como compreender que nos amesquinhemos, muitas vezes, e no momento em que o papel principal de nossas vidas se nos aparece, insistimos em ser coadjunvantes de nós mesmos?

(.......)

Acabo de receber uma pessoa que estava me entregando um documento, e me falou sobre o costumeiro hábito de: “ôxe! Setembro já ta terminando... e a gente nem viu, né?”. Eu respondi pra ele: “setembro está terminando, o ano está terminando, daqui a pouco a vida está terminando e a gente sequer deu por ela”.

Em minha experiência ouvi diversas vezes alguém dizendo: “ontem mesmo eu era uma criança; hoje já estão crescendo cabelos brancos em minha cabeça”. Pois ontem eu estava na praia (ainda sinto em minhas mãos a textura da areia descendo pelos meus dedos) e ontem, ainda, fazia construções arquitetônicas em areia (que os adultos insistem , ainda, em chamar “castelos”). Ainda sinto o vento brincar com as gotas de suor de minha testa, colando o sal em meu rosto. E quantos anos se passaram? Trinta? Trinta e cinco?

Quando, meu Deus, vou deixar de perpetrar os mesmos padrões? Até quando ficarei aquém de minhas possibilidades? Até quando não conseguirei dissolver-me em Vós, tal como aquele sal no vento oceânico que se colava em meu rosto? Até quando? Esta é uma pergunta para a qual não há resposta, pois a pergunta já é a resposta.

quarta-feira, setembro 20, 2006

PALAVRAS DO SUPERIOR PARA A ALMA

Enquanto medes, alma peregrina,
A distância que julgas existente,
Olha a luz que desponta do Oriente
E reconhece quem te ilumina.

Aquele que, vencendo a tua descrença,
A ti permanece intimamente ligado,
Deixa o teu íntimo iluminado
Pelo fulgor da própria presença.

Sabe que unidos estamos, tu e Eu,
Transpondo a dor que ainda te magoa;
Reconhece em ti que a Verdade é boa
E que quem a seguiu jamais perdeu.

Por isso, nestes abismos materiais,
Permaneço, passo a passo, contigo,
Erguendo em meus ensinos teu abrigo,
Sob a luz de verdades imortais.

Ó alma, que nos julgas tão distintos:
Por que vives nos pântanos, banhada,
Pelas misérias da ilusão açoitada,
E te perdes em vastos labirintos?

Sabe que sou tua própria fonte:
Na verdade, Eu sou tu, e tu és Eu.
Sou a luz que atravessa o horizonte
E dissipa o que em ti escureceu.

Por isso, enquanto insistes em adejar
Sobre uma dor que te parece sem fim,
Sentindo sem sentir, amando sem amar,
Sabe que tu mesma habitas em mim.

E enquanto vives sempre a me buscar,
Eu permaneço em teu próprio coração,
Para, com minha luz, te revelar
O caminho de tua salvação.

28/10/2005

Como o cruzar do aço...

Como o cruzar do aço das espadas,
Cruzemos, meus lábios com os teus;
O teu olhar no meu a mergulhar
Achando dentro de mim um deus.

Tua boca que traz uma palavra,
Uma oração que lavra meu ser,
Em um só tempo torna-me livre,
Agrilhoado em tua língua
Pleno de viver.

Cruzar meus olhos com os teus
Como se fossem herdeiros
Do habitar
Neste reino que vem de Deus;
Estes olhos verdadeiros
Venho adorar.

Teu viver que é minha semente,
Estrada de mim ausente
Sem meu caminhar.
Teu corpo, imponente beleza,
Que traz a mim a certeza
De te amar.

Porto Velho, 24/08/2006

AMIZADE

Quero ser teu peregrino de coração,
Ajoelhar ante o altar que tu és
Derramar meu amor em teus pés
E elevar-te a Deus numa oração.

Considero que esta vida caminhada
Nada é sem tua presença em mim,
Sem minha presença em ti, sem fim,
Sem objetivo, sem tua estrada.

Por isso aqui estou, em tua frente
Olhando teus olhos, calmamente
Sabendo que meu coração e o teu

Serão, na eternidade, dois viajantes,
E, no jardim do amor, dois visitantes,
Irmanados um no outro, tu e eu.

Porto Velho, 03/04/2006

DEPRESSÃO



Eu tive uma experiência com depressão durante três anos seguidos: dos 16 aos 19 anos. Foi uma época em que se instalou dentro de mim uma crise espiritual, em que comecei a questionar determinados aspectos de minhas crenças religiosas, inclusive a minha compreensão da Divindade (descrença, ateísmo, etc), profundamente influenciado pela minha educação católica (ou seja, pessoas mal preparadas para ensinar o que deve ser ensinado, sem ter nenhuma consciência do esotérico, da fonte da espiritualidade).

Dentro desta situação, chorava todas as noites pois o sentimento da morte tinha se estabelecido dentro de mim, e me sentia desligado de Deus (eu inclusive falava pras pessoas, nessa época, que pra mim já não era mais importante a sobrevivência após a morte, mas o conhecimento de Deus). Não tinha vontade de fazer as coisas. Era revoltado por situações de minha educação.

O rompimento com aquilo começou a acontecer aos dezoito anos, quando saí de minha casa e viajei para o norte do país. Em Roraima, no meio da floresta amazônica, fui lavrador (plantar e colher). Naquele momento, criou-se naturalmente uma disciplina (tinha que acordar seis horas da manhã, tomar café às 7:00, almoçar às 11:00, jantar às 18:00 e dormir 19:30, todos os dias), comecei naturalmente a compreender que a situação pela qual estava passando; que a minha incompreensão sobre a divindade advinha de um defeito de minha percepção, devido à minha formação materialista e extremamente racional (fruto de nossa época). Mergulhei profundamente neste sentimento, ou seja, dentro de mim mesmo. Bebi da taça de meus amargos questionamentos até o fim, até que fossem eliminados de meu interior.

Naturalmente, aos poucos, este sentimento de angústia, de prostração, foi desaparecendo, até que encontrei em meu interior, através de uma meditação, uma nova perspectiva da espiritualidade (que não dá pra explicar aqui, mas que me foi muito esclarecida pelos ensinamentos tradicionais que venho estudando, principalmente de Guénon).

Então, hoje, examinando estas situações, fica muito claro pra mim que só se iniciou este processo devido a uma falha minha de caráter. Primeiro, devido a falhas em minha família no sentido de me aproximar do espiritual de uma forma mais clara. Segundo, devido à própria educação cartesiana que temos nas escolas, que buscam o questionamento puro e simples, chegando ao absurdo de questionar o próprio questionamento (lembro-me perfeitamente que, quando entrei na faculdade de filosofia da USP, o Centro Acadêmico era anarquista, ou seja, não tinha presidente, nem secretário e nem tesoureiro! só havia uma mesa e as paredes pichadas com inscrições: "o CAF existe?").

Portanto, em minha experiência, dentro do laboratório de meu coração, entendo claramente que a situação pela qual passei foi de origem material, pois não conseguia fazer a conexão entre céu e terra, e a linguagem que utilizava no conhecimento não era o amor, mas a razão. E como a razão tem limites (e o Supremo Poder não os têm, é Infinito e Eterno), chegou um determinado momento em que percebi que esta razão não conseguia iluminar minha alma.

No entanto, pela minha falha de percepção, todo este processo havia que ser necessário no sentido próprio de cultivar dentro de mim a sede de Deus, pois racionalmente não era possível, em meu caso pessoal, superar e resolver aquelas contradições internas que eu cultivava, achando que eram religiosidade.

E, quando se pergunta e busca achar uma relação entre a depressão e uma pessoa que segue os ensinamentos espirituais de sua religião, com o sentido de buscar esclarecer, eu pergunto: será que não houve uma limitação racional no sentido do conhecimento instalado nesta pessoa quanto à sua própria religião (ou espiritualidade em todos os níveis)? Será que esta pessoa está seguindo sua tradição através do seu coração? Ou terá ela se resignando a compreendê-la através de seus processos cerebrais, da discursividade de seu próprio pensamento?

Paz a todos e um abraço.

domingo, setembro 17, 2006

Pode-se fazer comentário...

Uma pessoa me disse que estava querendo fazer comentários a respeito do que eu estava escrevendo, mas não conseguiu. Sinceramente, não havia pensado nessa possibilidade, mas abri a possibilidade de comentários, ok? Caso se interesse faça... Pra mim será uma honra.

Contrastes (1)


Quando a idade é tenra, as pessoas tendem a achar que nada mais é necessário mudar. Que suas tendências juvenis são, na realidade, convicções. E que o mundo já se encontra delimitado, junto com aquilo que deseja aprender.

Quando vejo hoje o que escrevia com dezenove anos, percebo que meus pontos de vista estavam bem abaixo daquilo a que deveria chegar. Atualmente, passados vinte anos, entendo que era apenas um início de minha caminhada, e se hoje posso me considerar um pouco mais maduro, isso se deve, é claro, ao entendimento de que sou ignorante. Naquela época, apesar de tudo em que eu acreditava, eu era ignorante de minha própria ignorância.

Contudo, apesar dessa auto-crítica antiga e atual, de mim mesmo enquanto adolescente e de mim mesmo na idade em que me encontro, não posso me decidir a amputar minha adolescência pois ela faz parte de minha mentalidade. Se hoje enxergo mais profundamente os desníveis de meu coração, tal percepção se dá devido aos erros cometidos, que eufemisticamente chamamos “experiência”. E para a existência do fruto maduro, houve a necessidade da semente, e que esta tenha imprimido no cerne da árvore todas suas características.

Hoje, vejo o quanto a vida está repleta de situações que entendemos complementares. E que, muitas vezes (nem sempre...) a recusa de vivenciar uma situação nos tiraria a profundidade do conhecimento de outra, mais profunda e importante. Luz e Sombra se entrelaçam em nosso ser e uma faz com que a outra seja realmente perceptível, trazendo à tona a beleza da assinatura de Deus. Quando comecei a compreender isso, percebi a realidade de que o Supremo Poder tenha construído a roseira com espinhos, apesar de todas as considerações que os botânicos e cientistas possam ter.

Recusar o contraste seria o mesmo que acusar nossa inteligência e condená-la ao vazio. Não é, ainda, neste mundo onde se transcendem os contrastes, mas no Superior.

Ilustrando bem a questão dos contrastes, certa vez cheguei à faculdade e observei um desconhecido conversando com outro na minha sala (nunca os tinha visto e nunca mais os vi; estas coisas parecem momentos em que a "máquina do mundo" se abre diante da gente para mostrar suas engrenagens). E ele dizia: "o conhecimento é como um balão; a superfície deste balão chama-se 'ignorância'. Quanto mais enchemos o balão, mais a superfície aumenta. Quanto mais conhecemos, maior nossa ignorância”.

Atualmente, parece que o balão está cheio, e o tamanho dele é indefinido. Porém, se antes utilizava, simbolicamente, meus próprios pulmões pra encher esse balão, hoje, ando atrás de uma agulha com o intuito de estourá-lo: a isso chamo síntese.

Poemas da imaturidade...

É interessante eu olhar estes poemas que escrevi na década de 80 (depois eu vou colocar outros da mesma época no blog). O quanto a vida se parecia com sua culminância, na época, e, no entanto, sequer eu havia subido meu primeiro degrau. O quanto tudo era tão intenso e tanto e, no entanto, minha ignorância me acompanhava onde quer que eu fosse, e a morte era sempre presente.

Parecem, na realidade, arremedos de poemas, muito inconsistentes. Mas, quando os olho, uma parte de mim está ali, algo que ainda se encontra vívido em meu interior, que não se resume apenas em lembrança, mas em força de viver. Deixar esta parte de lado é como se eu me mutilasse.

Hoje, quando vejo estes poemas antigos, cada vez mais enxergo minha ignorância. O quanto em nossa juventude achamos saber de todas as respostas. O quanto vemos, com o passar do tempo, que a ignorância aumenta na mesma medida que vc conhece (não mais aquela ignorância grosseira, mas uma que se insinua de forma sutil, na mesma medida em que nos afastamos de determinados valores juvenis). E o quanto a gente entende que o saber erudito enche, e o saber divino nos esvazia de nós mesmos.

A PEDRA

“Tenho passado a vida
espargindo silêncio
com meus olhos alheios.
Não traz a trágica alma
senão órbitas vazias perante a Sombra:
E ela é enorme, impassível,
obedecendo ao doce fado que é
acomodar-me dentro de Si”.


São Paulo, fevereiro 1985

CARNE DE SONHO (II)

Com estes olhos sou um cego
tendo imensa vontade de ver
o Teu deserto, meu jazigo,
Os quais sequer alcancei.

Quero construir um sonho
de minhas retinas gastas;
para além da carne existir,
dentro da Alma dos seres, ser.

Mergulhar em Teu conhecimento
embebido de Ti em meus lábios
forjando-me através da palavra.

Consagrando por miragem meu corpo,
escudo reforçado sem lamento:
existindo-Te sem me existir.

São Paulo, 31.12.85

CONSCIÊNCIA

São silenciosos meus passos
quando repreenchem
minhas pegadas:
Sinto-me culpado
como um relógio atrasado
incapaz de atrasar o dia.

São Vicente, 05.03.86

UM CORPO, UMA ESPADA...

Por tanto existir mesquinho
inclino-me a ficar prisioneiro
a ter liberdade divina
roubando-me de meu sofrimento.

Tanto quero existir dentro de meus ossos
dentro de meu próprio sangue,
dentro de meus átomos, com o mínimo útil de espaço,
que quanto mais me afogo e mais me afogo,
mais pareço retornar à tona de meu sufoco,
tal qual um peixe que respira
sem, contudo, querer partir de seu mundo
abandonando a liberdade conhecida da água
pela liberdade desconhecida da atmosfera.

São Paulo, 1987

Igor Silva

Um nome traduz aquilo que sou
recheando sua pele com meu ser.
Diz-me de minha face, de meus atos
eqüidistando alma e palavra
de um só marco do morrer.

Quisera socorrer-me destas dunas de letras,
labirinticamente incertas,
e levantar-me de suas campas num pródigo deserto
de nomes, de lábios, de estrelas.

Não bastará, porém, outro lugar
para acomodar este esquife aberto,
Este que é a solidão de amar
Pálidas areias num pálido deserto.

Mas caminhar neste campo-santo
desvela-me um sentimento forte:
das horas vou desvestindo o manto
superando a ampulheta da morte!

São Paulo, 1986

terça-feira, setembro 12, 2006

Uma mensagem sobre o amor e a vida...


Existe uma dificuldade em dizer "eu te amo" porque amar significa se comprometer com a vida e com o Universo. Por isso, para dizer "eu te amo" é necessário ter coragem. O amor é o bálsamo Universal, que cicatriza o passado e engendra o presente. Nada fica incólume ao amor. Aquele que o conhece pode se dizer renovado ou, até mesmo, renascido. Portanto, dizer "eu te amo" não é para qualquer um. É somente para aqueles capazes de se esquecerem de si mesmos, de seus egos, para buscarem frutificar no outro.

É também, devido a este fator de egotismo das pessoas, difícil fazer alguém feliz. Inclusive porque o caminho da felicidade é interior; não podemos fazer do outro o caminho de nossa própria felicidade, assim como não podemos colocar no outro esta responsabilidade que é nossa. E tal situação de infelicidade deve-se a estarmos adormecidos para a vida. Enquanto a felicidade (quando enxergada de dentro de nosso sono) é um caminho tortuoso, descobrimos a tristeza como um abismo diante de nós. No entanto, quando acordamos, despertamos para vida, vemos que flores e espinhos são naturalmente complementares uns aos outros, apesar de que devamos buscar o aperfeiçoamento em busca da florescência e não da dor. Mas, ainda assim, ao estarmos vivos, não podemos fugir da dor, e, dentro deste sentido, ao percebermos que dor e prazer fazem parte da existência neste mundo, devemos compreender que, enquanto a alegria frutifica, a tristeza, muitas vezes concebe o que há de vir.

Dentro desta perspectiva de busca do amor e da felicidade, outra das abordagens que geralmente fazemos quando estamos procurando internalizar esta experiência é quanto à fidelidade e à aventura. Mas, devemos questionar: O que é ser fiel? Quantas vezes fomos infiéis aos nossos princípios? Quantos de nós temos princípios? Numa balança, devemos sempre lembrar, o fiel sempre aponta para cima. Agora, não fosse o espírito de aventura, como Colombo chegaria a América? Fosse Colombo fiel ao preceito da terra quadrada, teria ele aportado no Caribe? Como se vê, existe relatividade nestas palavras, porque o princípio de toda a fidelidade deve estar no Superior, que se manifesta em nós através da Verdade, e não nas pessoas ou coisas.

Dentro deste mesmo sentido, de buscarmos relacionar o Superior com a manifestação neste plano onde vivemos, o Amor não pode ser objeto. Antes de tudo, o Amor é sujeito. Ou melhor: é acima do sujeito, pois vem do alto. Portanto, quem verdadeiramente ama, não ama alguém. Ama porque expressa a altitude de seu caráter. Ama porque compreendeu a vida, e não amar é perecer; não amar é obstruir o canal que ele próprio é da Essência, do Todo, do Superior. Portanto, para quem ama, nunca se perderá o amor. Quem ama não pode valorizar o amor, pois já é, em essência, o próprio Valor em si mesmo.

Porém, na atualidade, tais perspectivas se tornam mais complexas pela própria forma com que as pessoas levam suas vidas. A maior parte da humanidade caminha adormecida pelo tempo, olhando o ontem e o amanhã. Mas a vida chama-se "Hoje". O nome da vida é "Agora". E este agora é a própria eternidade. Este "agora" passeia em nossos corações, pedindo nosso reconhecimento e, muitas vezes, perece na inconstância de nossas atitudes, que busca tirar da vida apenas aquilo que está na superfície, enquanto a verdade está em mergulhar profundamente no mar, e buscar o tesouro esquecido em nosso interior. E sem esta perspectiva de entrega, de mergulhar, nós não conseguimos atingir os valores que expusemos até o momento.

Difícil enxergar que a vida é Eternidade, à qual chegamos através do coração.

Já nos ensinaram: o segredo da verdadeira felicidade é saber se contentar com pouco. O verdadeiro rico não é aquele que tem, mas aquele que não precisa ter, independente da quantidade de posses. Epicuro dizia que se alguém quiser aumentar sua riqueza, deve primeiro diminuir sua cobiça, pois a razão de todo sofrimento se encontra no desejo de ter, esquecendo-nos da Verdadeira Fonte de Tudo quanto há, que é o Ser.

E em nossa busca de Amor, Harmonia, Felicidade, tornamo-nos propensos a chorar, a sofrer, porque para muitos, devido a nossas próprias atitudes, a Graça está escondida. Mas quem tem a graça de estar vivo, ainda que chore, vive passeando neste imenso jardim, que é o Universo, apreciando as verdadeiras flores da vida, que somos todos nós.

A dificuldade, portanto, não está em ser feliz, mas em acreditar na dificuldade de o ser. Uma criança, em estágio de alfabetização, acharia difícil de ler este texto. Mas uma pessoa adulta acharia fácil. Onde está então a dificuldade? Dentro de nós ou fora de nós? Na realidade, não devemos exigir do exterior que nos compreenda e nos mantenha a verdadeira felicidade. Devemos, isso sim, ter a grandeza espiritual de compreender, de perdoar, de seguir em frente. De ter o coração limpo, como um receptáculo para a verdadeira benção, que provém do Pai. Assim nossa vida se transforma em bálsamo para toda a manifestação, e nossos corações serão unidos ao coração universal, sem mais fronteiras estabelecidas.