Este blog tem como objetivo publicar textos meus (em sua maior parte) e alguns textos que julguei interessante (com a devida menção do autor). Poesia, esoterismo, busca espiritual são os temas nele constantes.
quinta-feira, julho 08, 2010
Escolhas
- Diversas mulheres a escolher...
- Diversas carreiras onde trabalhar...
- Milhares de lugares onde ir morar...
- Diversas roupas com que vestir...
- etc.
Mas as diversas escolhas são ilusão. A mente cria milhões de aspectos, como se a vida fosse fragmentada, e diante desses aspectos, que são como areia no mar, ou grãozinhos de açúcar em uma usina, muitos não reconhecem a escolha a ser efetuada e se perdem.
Na realidade, existem apenas duas escolhas, ou melhor, uma afirmação e uma negação quanto a um mesmo objeto.
Ou eu escolho a Deus, ou eu não o escolho. Ou eu busco o reino de Deus e sua Justiça dentro de mim, ou não o busco.
Assim, as milhões de escolhas apresentadas se resumem em duas vias: na via que leva ao bem e na que não leva ao bem. Ou mais destacadamente: Na via do coração ou na via da materialidade.
Desta forma, um homem que tem diversas mulheres a escolher, na realidade tem apenas duas escolhas: escolher a mulher certa com a qual viver, ou escolher a que não lhe trará o necessário pra seu crescimento. Das carreiras, apenas uma lhe trará o sucesso em todos os níveis. Em suma, a vida nos diz que existem aquilo que é certo, a via direita a seguir, e aquilo que é tortuoso, ou seja, aquilo que não nos trará o desenvolvimento de nossa consciência, da vida interior em nosso coração.
Mas, ainda mais importante que escolher, o que é uma faceta individual da vida, é ser escolhido. Quando o fruto de nosso interior é adequado ao Superior, dele se utilizam as sementes na vida dos outros. As sementes de Luz de nossos corações são utilizadas na seara do infinito, onde se alimentam as almas dos famintos e dos que buscam com sinceridade.
Óbvio que existem incongruências em nossos corações, aspectos luminosos e sombrios. Eu sempre digo: o que existe de belo em meu interior pertence a Deus. Foi ele que permitiu que algo de sua luz brilhasse através de mim. Foi Ele quem permitiu ou autorizou que sua Luz brilhasse naquele ser em particular para que aquela Luz servisse de guia a si próprio, e aos outros que o acompanham na caminhada.
Assim, nossa vida, ainda que tenhamos as escolhas certas, ainda que escolhamos o melhor para nós, depende ainda de enxergarmos mais à frente, de acordo com as orientações que a tradição, e os seres a elas vinculados trazem, pra entender que muitos processos aparentemente ruins vêm para o nosso crescimento.
A morte, tão temida, é o fruto de nosso trabalho na terra. Faz parte desta vida. E tenho convicção que a vida é um aprendizado constante no morrer, do se entregar a esta escolha chamada “Reino de Deus”. As diversas “mortes” que acontecem em nossas vidas (a semente morre...) são a desvinculação de nossas energias atuais para com as passadas. Cada passo é a morte do anterior. Cada dia torna o ontem morto. Mas cada morte desemboca num renascimento. Cada momento aparentemente tenebrosa é revelação de uma nova Luz, assim como a Noite antecede o Amanhecer.
(...)
Agora estou morto. Agora estou vivo. O que era semente se transforma. Qual é o futuro? Uma escolha. Entrego a Deus o meu caminho e a minha vida: O rio já passou e suas águas agora estão renovadas.
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Deus em mim ama Deus em ti...
Centro insolúvel de minha existência,
Colhe suas flores de Teu jardim,
E Teu perfume mimetiza meu amor.
Portanto, quando Te disser:
“Vê, como faz calor...”
Saiba que estou te dizendo:
“Te amo”.
Quando me ouvires dizendo:
“Tu vens amanhã?”,
Saiba traduzir
As subversivas palavras de meu amor
Como “Te quero”.
Porque Tudo em mim busca a Ti,
Ainda que seja como referência,
Ainda que seja como essência,
Ainda que eu Te ignore,
Ainda que Te não veja.
Porque Tu me integras,
E minha amizade ama Teu amor,
E se Te aproximares,
Verás como faz calor em meu coração,
E como ele anseia que tu venhas ainda hoje,
Pois minha casa está aberta.
segunda-feira, outubro 13, 2008
AMIZADE
A compreensão do que é Sabedoria é um tesouro. Para isso, é necessário encontrar a linguagem que fala o coração.
Mas, quando a gente não tem experiência, ainda não é maduro suficiente, nosso coração nos fala, nossa consciência diz o que devemos fazer, mas não sabemos escutar, ou não escutamos direito, ou não queremos escutar.
O que fazer? Aqui está o momento de uma transformação: aprender a escutar os outros... Ver o que dizem de nós e examinar, sem nenhuma espécie de preconceito, a realidade das palavras ditas.
Muitos dizem coisas pra nos ofender, ou nos agredir. O que deve importar é o coração diante do espelho límpido: encará-lo atentamente e ver a realidade do que foi dito. Se alguém lhe agride, ou diz coisas pra machucar que não são a realidade, o que se deve fazer é perdoar e continuar em frente. Muitas pessoas têm insatisfações interiores, e a forma de dizer "preciso ser amada", muitas vezes vêm expressado "não gosto de você".
Ser amigo é saber entender estas contradições e, em vez de ouvir o que a voz do outro disse, saber ouvir o que o coração deste outro está falando.
Se a compreensão da Sabedoria é um tesouro, a compreensão do que é o amor é uma benção. E o melhor campo de provas para colocar em prática essa compreensão é uma amizade.
Quando temos amigos, nosso ser se enriquece, pois o amigo quer nos ver crescer. O amigo quer nossa felicidade. E ainda que nós digamos das nossas tristezas e rancores, ainda que nos sintamos desamparados, o amigo supera tudo isso, em busca de uma verdade oculta, que está dentro de nós mesmos.
As palavras que um amigo diz são preciosas; e se este amigo nos ama, de verdade, as palavras que ele diz são como um bálsamo que chega a nosso coração, cicatrizando as feridas, e nos dando força e determinação pra continuar a caminhar.
Um filósofo disse uma vez que todo o homem tem um vazio interior do tamanho de Deus. Antes de observarmos as mazelas, picuinhas, problemas de nossas vidas, vivifiquemos a essência maravilhosa que cada um carrega dentro de si, seja em si mesmo, seja no próximo. Não existe escuridão que sobreviva à LUZ que vem da Divindade, LUZ que ela nos dá através de nossas próprias consciências.
A vida não é apenas um deserto, mas tampouco é apenas uma planície. A vida é extremamente rica e maravilhosa, com montanhas, alguns desertos, mas muitas paisagens gratificantes. Quando houver deserto, deixe o amigo chegar até seu coração e juntos atravessar o deserto. Torna a travessia mais fácil. Quando houver montanhas, o amigo lhe ajudará, e lhe incentivará na subida. E quando houver paisagens maravilhosas, elas se tornarão sublimes quando admiradas na presença dos amigos.
E a paisagem mais maravilhosa que possa existir chama-se "AMOR".
POR ISSO EU PREFIRO TER AMIGOS. E AGRADEÇO SEMPRE A DEUS A OPORTUNIDADE DAS AMIZADES QUE TIVE EM MINHA VIDA. ELAS ME ORIENTARAM E ME AUXILIARAM A CRESCER, E ME ENSINARAM A SER UMA PESSOA MELHOR. E SE NÃO FUI MAIS LONGE, TAL ACONTECEU APENAS DEVIDO ÀS LIMITAÇÕES QUE EU ME IMPUS.
quarta-feira, junho 11, 2008
As Coisas Mudam - Igor Silva
1 – Existe uma época em que nós estamos em situação de superioridade com relação aos outros. Nessa época, em que temos o poder, é aquela na qual revelamos nosso caráter. Por isso, devemos ter cuidado e retificar nosso caráter naquilo que possa não estar amparado pelo amor ao próximo, pois o futuro vai nos responder conforme as atitudes que nós tomamos.
2 – Com o tempo, a superioridade aparente, que era antes bastante visível, começa a não ser tão proeminente, afinal o tempo passa e existe a possibilidade do crescimento dos outros, seja no caráter, seja nas coisas mundanas como poder e riquezas. Assim, começamos a ver que as pessoas nos tratam conforme as tratamos.
3 – Maravilhoso estarmos cercados por pessoas melhores do que nós! Isto significa grande oportunidade de aprendizado. A vida se nos oferece oportunidade para agirmos como mandatários e como servidores, uns dos outros. Sabemos, contudo, de acordo com as palavras de Jesus, que o maior dentre todos é aquele que mais serve a seu semelhante. Portanto o tempo vai passando e podemos estar diminuídos aparentemente com relação aos outros...
4 – assim, devemos ter muito cuidado com nossas atitudes. Uma hora o mundo nos coloca em situação superior, outra hora em situação inferior, tudo para que nosso aprendizado seja completo, e para que possamos perceber todos os pontos de vista. Para que compreendamos as dificuldades de mandar e obedecer. Para que compreendamos as vicissitudes de dar ordens e de recebê-las. O mais sábio, porém, é aquele que consegue suplantar a superioridade e inferioridade material, aparente...
5 – Pois no final das contas, a verdadeira superioridade não está no material, mas na força moral que nos dá o poder de dirigir homens livres. Neste caso, quando tudo parece estar contra nós aparentemente, quando estamos em posição de inferioridade com relação aos outros, na realidade o homem deve se aconchegar em seu coração, e lá identificar o leão que ruge e é o rei de si mesmo. Veja o outrora grande cachorro marrom, agora pequenino ao lado dos outros dois. O que se identifica nesta cena senão um sentimento de amizade entre eles, que naturalmente se formou pela atitude mútua de respeito? O que se pode identificar entre homens que fazem o bem durante toda a sua vida senão a superioridade natural, que nos fortalece a todos, e que a todos nos dignifica? Como se chama isso? Harmonia! Ajamos com harmonia, que o Universo nos retribuirá.sexta-feira, janeiro 18, 2008
A Realidade ao nosso redor
No entanto, a questão que não se costuma colocar, mas que é fundamental a todo momento em que realizamos algo, ou pensamos, é saber se aquilo com o qual nos conectamos naquele momento trará ou não um maior bem a todos ao seu redor. Será que ao se pensar ou agir dentro de uma linha de conduta, as conseqüências serão a expressão com maior pureza da Natureza Divina que está em seu interior?
Algo que sempre deve ser lembrado é o seguinte: nenhum problema é um mal em si mesmo, principalmente para quem busca a espiritualidade. Ou seja: "aquele que tem a mesma atitude, na tristeza e na alegria" é muito querido a Deus. Essa é a verdadeira Vida, acima de dissensões e desavenças, acima de contradições interiores. Essa vida é o que existe de mais rico em nós, porque não é nossa, mas a própria vivificação de Deus.
Quando abrir seus olhos, entenda que isso é um milagre... e que toda a existência está permeada de Deus. E, onde existe um aparente "problema", existe uma sombra... E para a “sombra” existir há a necessidade de existir uma luz anterior.
Quando existirem problemas (e sempre vão existir “problemas”), busque Deus, e verá que são oportunidades de aprender a se enxergar.
Lembre-se: os problemas e soluções não estão fora... as respostas não estão fora...mas dentro. Aquilo que é chamado "problema" nada mais do que quando Deus sublinha a vida para você enxergar melhor o que deve fazer, pois quando o problema aparece só existe algo a ser feito, que é solucionar.
As brigas e confusões existem como manifestações de um processo de ilusão. Ao serem manifestadas brigas e confusões, torna-se claro ao buscador que existe a necessidade de traduzir a vida para que se possa corrigir o rumo mental.
O que seria corrigir o “rumo mental”?
Todas as nossas atitudes são forma de relacionamento com o meio. E, sem o sabermos, na realidade, nossas atitudes são expressadas através de "símbolos" e sinais: uma cara feia... um sorriso.. um grito... um sussurro...
Quando você atribui uma realidade ao gesto em si, você não está sabendo penetrar no significado dele, no significado mais profundo.
Qual é o significado mais profundo?
Uma raiz invisível chamada "mente". A partir do momento em que você começa o processo de conhecer a si mesmo, entende que aquilo que se enxerga não é o mundo, mas a sua própria mente. O despertar desse processo é, nada mais ou nada menos, que o início do despertar, quando começa e se produzir os efeitos espirituais da iniciação.
Logo depois, começa o entendimento de que tudo existe devido àquilo que você atraiu para si mesmo. Por isso, a fonte de nosso mundo são nossos olhos "interiores", e os acontecimentos ao redor são o retrato de nosso coração.
Quando alguém conhece a si mesmo, conhece o seu Senhor, ou seja, Deus que está dentro de si próprio. Ao começar a se compreender isso, olha ao seu redor e enxerga Deus também no próximo, e passa a entender a vida não mais como um "leproso": afastado, diferenciado, insensível, mas como alguém que, simultaneamente não se envolve mas participa dinamicamente da Vida.
terça-feira, agosto 21, 2007
O ESOTERISMO
O que é importante ocupar-se, em primeiro lugar, objetivando um esclarecimento sobre o assunto, é que aquilo que chamamos esoterismo não é na realidade um tema sobre o qual discorremos, da mesma forma tal quando falamos sobre um assunto específico. Na verdade, ao tratarmos de esoterismo estamos tratando de uma perspectiva que está acima da visão exotérica, ou seja, que não está acessível à pessoa comum e sua linguagem discursiva de cunho racional.
O esoterismo é uma ótica sob a qual se vê tudo de uma perspectiva mais alta. Pois tudo que existe possui uma face oculta e uma face aparente. Enquanto a vida transcorre de uma forma cotidiana, sem muitos questionamentos, as coisas se nos aparecem conforme suas realidades aparentes, ou seja, ligadas em sua dimensão espaço-temporal materializada. No entanto, a partir do momento em que existe uma modificação do ato de ver o mundo (entendendo este ver como forma de percepção cognitiva das coisas), percebe-se que existe uma face oculta, que é sua realidade intrínseca.
O esoterismo, neste caso, é o meio através do qual esta visão supra-material se tornaria acessível. Desta forma, o indivíduo humano, através de ensinamentos simbólicos (que é a forma com a qual são transmitidos os conhecimentos esotéricos), tomaria conhecimento de outras modalidades de ser que não apenas a sua. Ou seja, saberia que ele, no estágio em que se encontra, limitado por um corpo, não seria identificado apenas com este, mas que sua individualidade e seu corpo seriam apenas processos visíveis de algo muito mais abrangente (caso se possa dizer desta forma). Mais simplesmente dizendo, que não seríamos um corpo que tem um espírito, mas um espírito que tem um corpo, sendo aquele sua realidade transcendente.
A busca do esoterismo, portanto, tem como plano de fundo a perspectiva espiritual, sem confundir-se, contudo, com a religião, esta com caráter exotérico. Como se vê, aquilo que chamamos de esoterismo não se confunde com diversas coisas que os meios de comunicação insistem em chamar como tal. Muitas vezes confunde-se esoterismo com ocultismo, com religião, com misticismo, enquanto na realidade tais coisas não podem ser mescladas, pois dizem de realidades distintas, apesar de conexas.
O trabalho do esoterismo seria o de conduzir o homem para tomar contato com sua realidade transcendente (e, desta forma, com a realidade transcendente de tudo quanto há), que é a própria realidade universal, e, assim, tomar posse de seus tesouros superiores, que são a sua própria essência. As palavras de Paulo traduzem de forma clara essa assertiva: “Lembrai-vos que o Altíssimo habita dentro de vós”, ou seja, que esta realidade transcendente é o próprio Deus.
Os ensinamentos esotéricos têm sido, muitas vezes, perseguidos pelas autoridades exotéricas porque não são acessíveis às suas compreensões. Enquanto o homem é visto como um pecador pelos próprios exotéricos (sendo isto apenas uma perspectiva por onde se pode enxergar o próprio homem), pela perspectiva esotérica o homem é o canal para a manifestação da própria divindade (sendo que, de forma alguma, estas duas possibilidades nunca se chocam, pois tratam de estados diferentes; um, o homem enquanto ser moral, agindo no plano físico, material; outra, o homem enquanto ser espiritual, feito à imagem e semelhança de Deus).
Portanto, os ensinos esotéricos têm por objetivo buscar a aproximação do homem à sua própria essência, estabelecendo uma conexão firme com seus estados superiores. O motivo de tal busca tem como princípio e fim a Identidade Suprema, como os Upanixades se referem, ou seja, a união com Deus, a Realidade Única e transcendente. Enquanto as correntes exotéricas pregam a salvação como meta última do homem, o esoterismo entende que a salvação é uma das metas, mas não a suprema, ou seja: seria apenas um estágio, ainda que muito avançado e de altíssimo grau de realização, mas ainda assim ligado a esta realidade contigente. A meta última seria a Liberação, quando o ser individual extingue totalmente sua ignorância da Realidade Suprema e nela se funde.
O KARMA
Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.
Gálatas (6:7)
1 - Introdução
A princípio, o estudo do Karma tem por objetivo aquilo para o qual se prepara todo aquele que busca conhece-lo: A liberação final ou a Suprema Identidade. Entende-se por liberação final o fim último do homem que é o de unir-se a Deus. O Karma seria, sob este ponto de vista, tanto veículo para a libertação do homem, quanto sua própria prisão, dependendo da forma com que ele é veiculado.
Dentro da tradição hindu, assim como na Budista, a palavra Karma (Kamma – em páli), oriunda do sânscrito, tem seu radical na palavra Kr , que quer dizer ação. Na doutrina tradicional da Índia, portanto, a palavra Karma tem sua acepção mais comum como “ação”, e a mais avançada como “ação ritual”, quer dizer, a ação que obedece a verdadeira maneira de ser do homem, a ação que expressa a natureza essencial do ser.
Para uma clareza maior, não há possibilidade de se dar seguimento ao estudo do Karma sem se examinar o que os hindus querem dizer com a outra teoria justaposta, a do Darma (ou Dharma, ou Damma – em páli). Tal palavra, assim como a própria idéia que advém da palavra, pode ser traduzida como “maneira de ser”. Alguns querem vê-la como Lei.
2 - O Dharma
O Karma e o Darma são frutos da existência do tempo. O homem oriental enxerga o tempo de forma cíclica e tem o entendimento que as características principais da passagem do tempo se repetem. Assim como a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno são características cíclicas dos anos, e todos os anos se repetem, cada qual expressando sua singularidade, da mesma forma os antigos dividiam o tempo em ciclos, prefigurando um determinado padrão cósmico.
3 - Manvantara
Diversas tradições falam sobre esta divisão, sendo que um número que entendemos ser aceitável é o que a escola perenialista coloca, de cerca de 64.000 anos, referente ao movimento de precessão dos equinócios (inclusive é este o número que os babilônios entendiam que se referia a um ciclo).
Dentro deste ciclo, que seria chamado pelos hindus de “manvantara”, existe uma “maneira de ser”, ou de se expressar, que deve ser obedecida para que o ser que nele vivesse tivesse a melhor forma de orientação. Portanto, esta Lei (ou maneira de ser) chama-se Dharma.
4 - O Karma, propriamente dito.
O Karma, sendo ação, ou seja, expressão do ser humano, deve acontecer de acordo com a “maneira de ser” de cada ciclo. Normalmente, o karma é a expressão dessa maneira de ser. O afastamento desse é que se tornaria uma aberração, um afastamento do curso natural das coisas.
As tradições espirituais (ou simplesmente tradições) são as guias e orientadoras da maneira de ser de cada ciclo. Portanto, as formas tradicionais mostram qual caminho a ser trilhado para que o ser se mantenha dentro do dharma, e dele não se afaste. São elas, portanto, a tradução ao ser humano de qual é a vontade do Ser Universal, do Grande arquiteto do Universo – Deus, para ser seguida por todos os seres.
Esta lei vale para todos os seres, sejam animados ou inanimados. Mas, num sentido didático apenas, busquemos examinar o comportamento do Karma com relação aos homens.
5 - A Missão
Cada homem tem, dentro do plano Universal, uma função geral e uma singular, à qual os ocidentais chamam de Missão. A característica geral do homem o coloca no centro do Universo manifestado como o principal fator de irradiação da força divina. As tradições deixam isso claro a partir do momento em que dizem que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.
A característica singular é a ferramenta com a qual cada homem nasce para trabalhar no sentido de expressar a característica geral do homem, que é sua verdadeira essência. Ou seja: o caráter singular do homem é a ferramenta que ele tem para expressar o Homem verdadeiro que existe em seu interior. E quando ele age de conformidade com este caráter, ele expressa a verdadeira luz que está em seu coração.
A essa ação consciente que o homem tem em busca de expressar a sua verdadeira essência, que Jesus Cristo chamou “Reino de Deus”, e Sidarta Gautama chamou “Buda”, é o primeira explicação do que é karma, ou seja: Ação ritual; ação de conformidade às leis universais.
6 - Causa e Efeito
No entanto, a palavra Karma obteve, com o passar dos anos, e com a tradução ao pensamento ocidental outra conotação. Passou apenas a ser tão somente a “lei de causa e efeito”, ou seja: toda ação produz um resultado.
Não sendo, contudo, essa a principal perspectiva pela qual o Karma deve ser estudado, não se poderia passar por cima deste assunto sem que haja a abordagem.
Paulo escreveu em Gálatas (6: 1 a 7):
1 IRMÃOS, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. 2 Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. 3 Porque, se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. 4 Mas prove cada um a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro. 5 Porque cada qual levará a sua própria carga. 6 E o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui. 7 Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.
Neste excerto, Paulo está falando exatamente da lei da causa e do efeito, ou seja, em linguagem popular: “Quem plantou abacaxi não pode colher mamão”. Mas, dentro dessa possibilidade kármica, existem muitas nuances que devem ser analisadas.
7 - Aspectos da Lei da Causa e do Efeito
A primeira é a seguinte: o que se planta se refere apenas ao aspecto externo da ação? Esta primeira pergunta deve ser respondida com um sonoro não. Tanto positiva quanto negativamente. O aspecto externo não traduz a relação cármica entre indivíduo-ação e efeito. Por exemplo: Jesus chicoteando os vendilhões e um feitor chicoteando os escravos. O que há de primordial nessa imagem? A intenção.
Apesar do dito popular dizer que “o inferno está cheio de boas intenções”, o que faz com que uma ação tenha valor cármico são os fatores que a produziram. E, neste caso, a intenção está na base do valor da ação. Um fariseu que ora em público e um fiel devoto que ora em silêncio, fazem a mesma ação, mas com qualidades diversas.
Portanto, o que se tem que ter em mente, em primeiro lugar, é que a ação em si mesma é destituída de um valor verdadeiro. O valor não está na ação em si mas, em primeiro lugar, na intenção com que se faz.
Mas se a intenção fosse o único fator para se valorar a ação, o dito popular não teria sua verdade. Portanto, entra um segundo fator que deve ser levado em conta no momento de se valorar a ação, que se chama Lei. A ação deve ser feita com a intenção verdadeira, e os olhos postos sobre a lei, quer dizer, o Karma não pode ser desvinculado do Dharma.
8 - Providência Divina, vontade Humana e Destino
Neste ponto de vista, adquirimos a visão de três fatores primordiais, que de forma alguma estão desvinculados, sendo aqui citados apenas por razão didática: A Lei, o Homem e a ação., que poderíamos colocar dentro dos seguintes aspectos utilizados pela tradição ocidental: Providência Divina, Vontade e Destino (ou Fatalidade).
A Lei provém do grande Arquiteto do Universo. Ao homem cabe a intenção, a expressão de sua vontade. A ação tem como fator determinante o objeto.
Por este motivo, quanto mais o homem, em sua ação, se aproxima da Lei, mais se afasta da fatalidade e domina seu destino. Quanto mais se afasta da Lei, mais preso estará pelos resultados de suas ações. Ou seja: a verdadeira liberdade não está em fazer o que quer, mas em escolher o que realmente deve ser feito, estar de acordo com a Lei, ou o Dharma.
9 - Ação sem buscar usufruto
A doutrina hindu também fala sobre o resultado das ações: o homem deve agir sem buscar usufruir os resultados. Dentro do pensamento oriental, quando o homem age já buscando um resultado, uma recompensa, a intenção já está falha e não produz o efeito desejado. Por isso a máxima: “Amar sem ver a quem”. Para o homem ocidental, tal perspectiva pode parecer, a princípio absurda. Porém, aquele que faz o bem em busca do paraíso, já obteve seu resultado. E aquele que faz o bem para fugir do inferno, também já obteve seu resultado. Desta forma, o caminho da perfeição, utilizando o Dharma está na ação desinteressada do bem. Rabi’a, adepta Sufi do séc. VIII, dizia o seguinte:
“Pela Tua força, ó Deus, eu não Te adoro porque desejo Teu Paraíso, mas por amor a Ti. Não é o Paraíso que eu passarei minha vida a procurar.”
10 – Conclusão
Concluindo, dentro da perspectiva oriental, o Karma é muito mais do que simplesmente a propalada “Lei de Causa e Efeito”, mas própria expressão da Lei Universal.
Que sou, sem tu mesma, em meu destino...
Senão um insipiente pó desacordado?
Que é meu destino senão um dado
Jogado pelas mãos de um menino?
Desgarrado olhar que se me arvora
A escolher entre o cadafalso da ilusão
E um existir medonho, que apavora
O coração mais isento de emoção.
Somente tu me ergues, soberana de mim,
Pois em ti meu amor não tem fim
Sendo meu próprio coração tua glória.
Somente tu me amas, rainha da história.
E tanto neste amor vou transcendendo
Que a mim mesmo vou me vencendo!
Se perdôo tempo a tempo teu olhar...
É porque reconheço-me em tua voz,
Em teu pulsar, como se fosses mar
Onde eu, rio, despejo minha foz.
Se perdôo tempo a tempo teu lábio
É porque meu coração transcende
E dentro de mim encontro o sábio
Pensamento que te compreende.
Portanto, de perdão e gratidão
Toda a nossa vida é feita
No umbral do Eterno.
Contigo, não existe mais solidão
Pois meu lábio a ti aceita
Neste sentimento terno.
A compreensão de que existo apenas...
Quando encontro-me em teu olhar,
Tem me redimido de todas as penas
Pois em teu coração está meu lar.
Habita, pois, meu coração feito Luz
Ou feito pedra preciosa que atordoa:
Com seu brilho real que me conduz
Faz-me acreditar que meu amor voa.
Voa e me traz de mim a mim mesmo,
Como o verbo que encontra o lábio
Daquele que o pronuncia.
Contigo, já não estou mais a esmo,
Pois com amor o coração é sábio,
E a felicidade se anuncia.
domingo, abril 08, 2007
Considerações sobre a Felicidade
A importância de se ter paz interior é muito grande. Se atropelarmos as coisas, estamos sujeitos à infelicidade. Portanto, a riqueza inacessível às forças deste mundo é a fonte da paz, da luz e do amor.
Esta Fonte, aos olhos racionais, é um paradoxo, que deve ser sublimado pelo coração: ao mesmo tempo que se alteia de um plano aparentemente inacessível, ou seja, vem do alto, está depositada em nosso interior.
Neste caso, a expressão dela é que nos torna mais felizes, enquanto a sua supressão é capaz de nos liquidar.
Se todo homem busca sua felicidade, por qual razão esta felicidade se apresenta diante dele? Como pode ele compreender, dentro das misturas que a ilusão tenta fazer na realidade, o que é a verdadeira felicidade?
Está claro que toda pessoa constrói sua felicidade. Ainda que pareça, aos olhos dos outros ser infeliz, ainda assim, em seu interior, a pessoa pode ser feliz, porque a felicidade não é apresentável a este reino material, reino das quantidades, pois está acima da visão material.
Na simplicidade de visão, a felicidade se apresenta com uma aceitação interna da vida que se leva, ou, em outras palavras, é o estarmos bem conosco. Mas devemos observar que isto é apenas o sinal da felicidade se apresentando. Porque a felicidade, segundo posso ver, é expressarmos a Deus em sua perfeição. Ou, conforme diz Jesus: "Sêde perfeitos como vosso Pai celestial é Perfeito".
Portanto, em maior ou menos grau, a Divina Presença que existe em nossas vidas é quem torna factível o viver. É o Superior, que está
No entanto, existe algo superior à felicidade, que não está acessível ao homem neste atual estágio de evolução: A união plena com Deus.
Uma vez eu estava meditando e buscava entender o que era perfeição... Então, veio-me uma visão: eu me vi dentro de um buraco escuro que eu entendi que era, na época, minha condição presente...
Nesse momento, vagarosamente, fui elevado para a boca desse buraco e, quando coloquei a cabeça pra fora, vi uma planície noturna e um céu estrelado.
Uma voz me dizia assim:” isso é a perfeição... apenas o começo da caminhada”.
Então, naquele momento, entendi que a perfeição que tanto falamos é quando o homem está preparado, pois a perfeição está em nós aguardando apenas ser expressada.
Neste caso, a princípio, o homem busca a felicidade como fiel condição de expressar sua natureza real e humana. Porém, chegará um momento que a felicidade já não será suficiente, porque somente a dissolução da Alma no Amado seria capaz de suprir tudo.
Quando Jó dizia: "minha alma tem tédio de minha vida", era, segundo o meu ver, a isso que ele se referia. Da mesma forma que São Franscisco fala: "É morrendo que se vive para a Vida Eterna". E da mesma forma que os místicos, sejam cristãos, mulçumanos ou judeus, entendem: "o que é vida para muitos, para mim é morte; e o que é morte para muitos, para mim é vida". Ou seja, a maior felicidade deste mundo ainda é pequena em comparação, se podemos dizer dessa forma, com o que nos espera em outros estados do ser.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Quem é o aprendiz? (2)
Apesar de entender o sentido colocado pela frase, em que o discípulo pronto já não teria mais razão de ter um mestre, alguém que o guie, ainda assim vejo que a primeira frase seja mais completa, porque fala de dois pontos de vistas necessários. O primeiro, que já mencionei no texto de 04/10/2006; o outro seria o seguinte: O mestre que aparece é, caso se possa dizer assim, o “Si Mesmo” do próprio discípulo.
Desta forma, entende-se que a única função do Mestre (que é, talvez, a mais sublime missão de um homem enquanto tal) é de despertar o discípulo para sua essência, e fazê-lo enxergar que o Mestre que ele vê fora, também está dentro.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
O que é um "símbolo"?
Hoaiss coloca a etimologia da palavra da seguinte forma: “um objeto partido em dois, em que dois hospedeiros conservam cada um uma metade, transmitida a seus filhos; essas duas partes comparadas serviam para fazer reconhecer os portadores e para comprovar as relações da hospitalidade contraída anteriormente”. Ou seja, a partir do momento em que duas pessoas juntavam suas respectivas metades, havia, neste caso, um sinal de reconhecimento. Silveira Bueno coloca a origem da palavra de maneira bem significativa; ela viria do grego symbolon, do verbo symballo – “eu comparo”[1].
A palavra reconhecimento também tem um aspecto a ser colocado. Reconhecer tem o significado de prestar ao objeto do reconhecimento uma validade, ou uma certificação. E, ao mesmo tempo, para que haja este reconhecimento, há a necessidade de um conhecimento prévio. Neste caso, a partir do momento em que o objeto do reconhecimento se encontra à disposição de nossa consciência, fazemos uma comparação com aquilo que temos em nosso interior com aquilo que percebemos externamente. Assim, para se efetuar o reconhecimento há a necessidade de um conhecimento prévio.
Temos então duas palavras que, juntas, conformam um entendimento: símbolo (duas metades de uma coisa) e reconhecimento (ato de identificar algo).
Portanto, quando falamos de “símbolo”, estamos falando também de uma espécie de conhecimento analógico, em que se faz o “reconhecimento” de algo, estabelecendo entre duas coisas uma relação ou uma semelhança. E, as duas coisas sobre as quais colocamos o nosso conhecimento analógico são: uma interna e outra externa.
Para deixarmos bem clara esta parte, um símbolo não seria uma mera convenção estabelecida. O símbolo, conforme René Guénon coloca, “é uma pegada do invisível”, é essencialmente “não-humano”, ou seja, criado conforme forças não pertencentes a esta modalidade de existência na qual o ser humano está. Em sendo assim, o símbolo funciona como uma mensagem da eternidade ao homem, como algo que o faz despertar para idéia da filiação a uma origem superior, dita “espiritual” ou “divina”.
Portanto, desta forma, o símbolo seria a metade externa que despertaria no homem o conhecimento da metade interna, já nascida com ele. Enxergando assim, toda a natureza representaria uma mensagem da Divindade ao homem, cabendo a este decifra-la com o conhecimento que se acha guardado em seu coração. E, o que é muito importante, o símbolo funcionaria como fator revitalizante da consciência, tendo em vista seu caráter de produzir no próprio homem a sede de saber a “Verdade”, para através deste conhecimento obter a plenitude.
[1] Francisco da Silveira Bueno – Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa – 7.º Volume – Edição Saraiva – São Paulo – 1968.
sábado, dezembro 16, 2006
Lembre-se de Si
"Num lugar assim", refletia Nasrudin consigo mesmo, "fico imaginando como é que as pessoas fazem para não se perderem de si mesmas, para saberem quem são."
Então, pensou:
"Devo recordar-me bem de mim, caso contrário poderia perder-me de mim mesmo".
Mais que depressa, procurou uma hospedaria.Um sujeito brincalhão estava acomodado numa cama próxima àquela reservada a Nasrudin. O Mullá pensou em fazer a sesta, mas estava diante de um problema: como encontrar novamente a si mesmo ao acordar. Confidenciou seu problema ao vizinho.
"Muito simples", disse o tal brincalhão. "Aqui tem um balão. Basta amarrá-lo na sua perna e ir dormir. Quando acordar, procure o homem com o balão e esse homem será você."
"Excelente idéia", disse Nasrudin.
Algumas horas depois, o Mullá acordou. Procurou o balão e o achou amarrado na perna do vizinho brincalhão.
"É, esse aí sou eu", pensou.
Então, apavorado, começou a sacudir o sujeito:
"Acorda! Algo aconteceu, do jeito que eu imaginei que aconteceria! Sua idéia não foi boa!"
O homem acordou e perguntou qual era o problema. Nasrudin apontou-lhe o balão.
"Pelo balão, posso dizer que você sou eu. Mas se você sou eu, pelo amor de Deus, quem sou eu?"
Corpo-Alma-Espírito
A alma provém do espírito e está relacionada ao ser manifestado mais em sua relatividade. A imagem que me vem é a do Sol (espírito), o raio do sol (alma) e a terra (corpo). O raio do sol é o que ilumina a terra, pois o sol não pode vir à terra iluminar, sob pena de fulminar todo o planeta. Lembro-me, inclusive, neste momento, de um verso de Rilke que diz que "todo anjo é terrível"! Ou seja, que a majestade espiritual é muito forte.
O espírito anima (anima, a palavra latina que originou a palavra alma, que significa sopro, se não estou enganado) o corpo através da alma, que é a ponte que liga matéria e espírito. Na formação da alma surgem dois aspectos: A alma superior (aspecto mais ligado ao espírito) e a alma inferior (aspecto mais ligado à matéria, ao corpo). Esta, a alma inferior (também chamada psique inferior), está muito conectada àquilo que pensamos, sentimos e fazemos. Por esta razão que as religiões fazem todo o possível pra que as pessoas estejam equilibradas neste aspecto, pois a subida delas a estados superiores do Ser vai depender de uma psique inferior equilibrada, sem contradições. A alma, portanto, é o campo no qual devemos trabalhar para o aperfeiçoamento.
A alma superior é a antena da essência, ou seja, é através dela que o homem conhece a divindade. Se a Divindade se apresenta ante o homem, a percepção dEla vem através da psique superior.
segunda-feira, novembro 27, 2006
À Bacante
Um murmúrio de asas e trombetas
Assinalando as portas abertas
que existem em minha alma.
Será que quando as mexo e toco
Em tua consciência tu despertas
e te colocas em aguda atenção
por estes murmúrios que provoco?
Sou um aventureiro buscando a rota
pelo teu desconhecido oceano
e pela senda intocada de teu peito...
Sou um pescador que não aporta
quando reconhecido algum engano,
ou quando tenho amor em meu leito!
* Achei este poema em meus arquivos. Pelo estilo, acho que é meu. Se alguém tiver prova em contrário, que ma forneça... :-)
quinta-feira, novembro 23, 2006
O Autoconhecimento
Muitas vezes, também, coisas aparentemente ruins neste plano horizontal são interpretadas como desgraças, e a velha pergunta ("por que coisas ruins acontecem com pessoas boas"?) vem a nossos pensamentos.
Contudo as coisas acontecem por estarem enraizadas em nossas mentes. Se buscarmos "A", não vem "B"; se pensarmos e quisermos "A", e falarmos para os outros que queremos "B", vem "A", pois fixamos nossos corações em "A". Neste último ponto as pessoas dizem que a vida é uma incerteza, e alguma razão existe para isso: Numa existência cumulada de variedades e dispersões, encontrar algo firme parece-nos tarefa impossível.
As pessoas pensam: "foi a mente que nos traiu", mas não é a mente que nos trai, somos nós que, não nos conhecendo suficiente pra enxergar o que somos verdadeiramente, não entendemos nossos processos mentais. Muitas vezes a mente está dizendo uma coisa que não somos capazes de escutar, devido à nossa própria ignorância de nós mesmos. Aí, então, este processo mental vem à tona, aparentando ser uma "surpresa", mas as raízes dessa "surpresa" já estavam estabelecidas pelos nossos processos mentais já havia algum tempo.
Porém, quando começamos a entender como a mente age, começamos a perceber que nossa vida é construída conforme nossos pensamentos, sentimentos, palavras, ações. É necessário, portanto, aprender a conhecê-la, pra que não existam surpresas desagradáveis. Como diz o ditado: "quem plantou abacaxi, não pode colher mamão".
Mas existe algo como conhecer a mente? Isso é tema pra uma reflexão mais profunda, pois como o instrumento pode se utilizar para trabalhar a si mesmo? Como o martelo pode se bater? Ou a chave se apertar? Na realidade precisamos conhecer o "Si Mesmo", que é a raiz metafísica da mente. E conhecer a si mesmo demanda uma diversidade de trabalhos interiores e exteriores, que, quando vemos o caminho a ser trilhado, já perdemos o fôlego (uma outra perspectiva, mais zen: se não existe o espelho, onde se acumulará a poeira? Se não existe caminho, como caminhar?).
Quem conhece a "Si Mesmo" conhece o seu Senhor. Esta é a única tarefa que devemos realizar perfeitamente em nossas vidas. E apesar dos contrastes que tal processo envolve (tristezas e alegrias; dores e prazeres), nós devemos entender que só apreciamos o valor da luz, comparando-a com sombra. O Baghavad Gita diz o seguinte:
"Aquele que não se apega, que é amigo sincero de todos os seres vivos, que não tem senso de posse; que tem a mesma atitude na tristeza ou na alegria, que é sempre determinado, tendo a mente e o intelecto harmonizados comigo, é muito querido a Mim".
Portanto, a questão não é prazer ou dor; tristeza ou alegria; o autoconhecimento é o caminho que se trilha para se transcenderem todas as coisas.
sábado, novembro 18, 2006
Amor e Justiça
A Justiça e o Amor têm que estar equilibrados dentro de nós. Amor e Justiça são como que dois lados de uma balança, daquelas antigas de dois pratos: a mais sensível oscilação de um lado já interfere no outro também. Está claro que tanto um quanto outro conceito são, dentro de nosso ponto de vista, os que utilizamos para demonstrar uma realidade deste plano em que nós vivemos, o plano material, pois na Divindade, Amor e Justiça estão unidos, inseparáveis. Contudo, com nossa tendência para a dualidade, nós os separamos em nossos corações, provocando então um desequilíbrio que antes não existia. O conhecimento antigo entendia que o amor sem justiça transformaria o homem num fanático, e que a justiça sem amor transformaria o homem num tirano.
Portanto, quando na citação acima o sr. Oscar A. Romero diz que sem o amor a justiça é uma espada, é porque ela fere, porque é tirana e não enxerga através do amor, pois o Amor é quem dá visão à Justiça, e é a Justiça que dá a prática, a base, a sustentação neste plano terreno ao Amor para que Ele se cumpra, e o plano de Deus aconteça em nosso Universo. Portanto, se formos pegar o conhecimento chinês, Justiça é Yin, Amor é Yang. Quando equilibrados são a perfeição.
Quanto à dizer que o “amor é a síntese da lei”, o Sr. Oscar A. Romero, pelo que podemos entender, ele nos remete a uma união entre Céu e Terra. Primeiro, para abordar com mais acerto, devemos examinar superficialmente o que quer dizer “síntese” na frase mencionada (qual dos sentidos desta palavra que está sendo utilizado na frase).
A síntese não é um agrupamento de idéias, tal qual uma colcha de retalhos. A síntese é a fusão de idéias que, apesar de aparentemente díspares quando apanhadas em separado, formam, assim que fundidas, um todo coerente e harmônico. Ou seja, a síntese busca encontrar a essência (e sempre descobre que toda a essência nos remete a Deus) e, através da essência, une tudo em um todo congruente.
Então, aquele que faz a síntese reconhece atrás das coisas a raiz oculta que elas trazem consigo, ou seja, a raiz divina e espiritual, a assinatura de Deus. A partir do momento em que alguém tem uma profundidade espiritual tamanha pra enxergar a Realidade das coisas, que Ela não provém deste plano mas de outro superior, é capaz de saber como encaixá-las num todo harmônico e efetuar a síntese.
Outra coisa que se costuma confundir é Lei e justiça. A Lei é a raiz da justiça. Justiça é aplicação, ação, prática da Lei, sendo esta a origem da justiça.
Neste caso, quando o autor diz que o Amor é a síntese da Lei, ele está se reportando a questões superiores à justiça e ao amor tal como mencionamos logo no princípio, pois a justiça e o amor neste plano em que vivemos, conforme dissemos, são entendidos como uma dualidade. Este Amor que ele menciona, que entendemos de ordem superior, é um aspecto de Deus que neste plano reconhecemos através do amor pessoal, concretizado no amor ao próximo. E, somente como forma de esclarecimento, alguns homens mencionam Deus de uma forma não personalista como "A Lei que a tudo e a todos rege", ou seja, como o ponto central através do qual toda a criação tem seus parâmetros.
Quando existe o Amor, Deus está presente. Quando existe o Amor, aquele que ama, na realidade ama a Deus. E quando ama, percebe que quem ama através de si mesmo é Deus.
Então, a partir do momento em que reconhece a essência, realiza a síntese em si mesmo. Por este motivo o amor é a síntese da Lei (da mesma forma com que a justiça também é a síntese da Lei!), porque a Lei (O Grande Arquiteto do Universo: Deus), em sua totalidade e glória ainda está inacessível a nós. E uma das características da síntese é ser uma espécie de resumo, pois a fusão tira o caráter de multiplicidade (muitas coisas separadas) e consegue a Unidade, que é um atributo da Divindade.
sexta-feira, novembro 10, 2006
O VALOR DE UM TESOURO ESCONDIDO
- Seria um prazer tirá-las do esconderijo, e assim eu poderia olhá-las também.
A coleção foi trazida, e os dois deleitaram os olhos com o tesouro maravilhoso por longo tempo, perdidos em admiração. Quando chegou o momento de partir o convidado disse:
- Obrigado por me dar o tesouro.
- Não me agradeça por uma coisa que você não recebeu - disse o sacerdote. - Como não lhe dei as jóias, elas não são suas, absolutamente.
- Como você sabe - respondeu o amigo. - senti tanto prazer admirando os tesouros quanto você, por isso não há essa diferença entre nós como pensa. Só que os gastos e o problema de encontrar, comprar e cuidar das jóias são seus.
O AMOR (EM TRÊS ATOS)

I - Espiritual
Eu sou o caminho para a Unidade
Onde o peregrino encontra a Paz.
Trilhando nesta via da Verdade,
Encontrarás Deus mais e mais.
Eu sou o lenitivo da opressão,
Que faz aplacar toda a dor
Daquele que me pede guarnição:
Por isso que me chamo Amor!
O que bebe em minha Fonte
Muito além do horizonte
Obtém de mim a Eterna Vida.
O que me tem no coração,
De Deus recebe a salvação,
E a Alma a Ele fica unida.

II - Psíquico
Quando duas almas se encantam
E ambas são unidas na Eternidade
A Natureza Divina toda canta
Pois estão mais perto da Verdade.
Beleza há para todo o ser amar
Na busca da Divina Perfeição.
Para isso, é preciso aperfeiçoar
Cada vez mais o seu coração.
Pois todo coração é uma taça
Em busca da beleza superior
Que é a lei de Deus quando cumprida.
E, por mais que cada um faça
Só o que se realiza no amor
Realiza em si a missão de toda vida.
III - Físico
Beleza há quando dois corpos se conhecem
E a Eternidade vem habitar em seu leito.
É a hora que todos amantes não se esquecem:
O coração pulsa mais forte dentro do peito.
Esta forma singela de nosso amor expressar
É a forma mais bela que Deus criou para nós.
Um corpo encontrando outro para amar
Expressa Sua Vontade: não fiquemos sós.
Dizer-te, portanto, que te amo neste momento,
E que em todos os níveis estou pleno deste Amor,
Pode ser que para ti isto não signifique nada.
Mas Deus não quer um filho seu no tormento
Pois fala a meu coração: “Filho meu, sentir esta dor
Significou colocar o pé nesta Divina Estrada”.