Vão-se passando as vírgulas do tempo, e cada vez mais parece ficar difícil para eu escrever uma mensagem de Natal.
Este blog tem como objetivo publicar textos meus (em sua maior parte) e alguns textos que julguei interessante (com a devida menção do autor). Poesia, esoterismo, busca espiritual são os temas nele constantes.
segunda-feira, dezembro 06, 2021
MENSAGEM DE NATAL - 2021
domingo, dezembro 06, 2020
QUEM SOU EU?
Numa primeira vista lançada sobre o assunto, talvez seja essa uma pergunta que não tenha resposta, ou uma pergunta feita para que esta não haja: a pergunta funcionaria como um koan. Talvez, também, todas as elucubrações sobre o tema, toda a história da filosofia, não são mais que tergiversações para indicar ao homem algum caminho, alguma conformação ao coração daquele que tem um destino inexorável pela frente. Contudo, se a pergunta está lançada, quem seria eu para não enfrentá-la?
Será necessário, no meu ponto de vista, reestruturar a pergunta e começar a me perguntar algumas obviedades, como por exemplo, quem eu não sou. E um psicanalista, ou psicólogo, ou psiquiatra poderá observar minhas palavras e indicar-me a fazer um tratamento sério e profundo, quem sabe até num sanatório.
Contudo, já estou internado neste mundo e navegando nele agradecendo à vida e à oportunidade de estar vivo. E neste caso, quanto mais as horas se acumulam e se esboroam diante de mim, mais tenho claro que eu não sou aquilo que pensam de mim. Que eu não sou a imagem que me fiz. Que eu não sou a educação que me deram. Que eu não sou aquele que me olha desde o espelho, de uma forma invertida.
Tampouco não sou o corpo. Este corpo virará pó em alguns anos, e depois de 10 trilhões de anos não haverá nem sequer a mínima menção a alguém, nem talvez existam corpos. E talvez nem o existir seja um fato. Talvez nem... Somente um ponto, que não tem existência real neste mundo, serviria para descrever algo após dez trilhões de anos.
Se não sou um corpo, apesar de ser um homem heterossexual, não sou também um homem na acepção limitada da palavra, o macho itinerante que busca seu lugar no mundo. Porque este macho também virará pó, e será enterrado, ou eliminado pela cremação e, de toda forma, virará pó que alimentará os vermes, as plantas, e retornará ao ciclo da existência natural, servindo, talvez, de suporte a outros seres.
Não sou o pai, o marido, o filho. Neste imenso palco, tudo isso que anotei até agora não são nada mais que papéis representados por este simples inseto que olha estupefato para a mansidão do universo. Lembro-me de um livro de Yasunari Kawabata, onde o personagem principal, no final do romance "O País das Neves", arrebatado pela tragédia que o abatera, olha para a via-láctea, e esta adentra a si mesmo, numa epifania. Desde os dezesseis anos, minha vida é esta epifania.
Sabedor disso, não posso ser o servidor público: também seria um papel. Tampouco posso ser o eleitor, ou ser o consumidor (palavra que para mim é abjeta, onde se reduz todos os seres humanos a apenas um pífio aspecto da sua vida). No fundo, nada disso me identifica, apesar que, sendo um o ator secundário desta complexa história, ainda assim exerço meu papel como um cidadao comum, seguindo, externamente os paradigmas impostos, enquanto que por dentro busco algo mais que os papéis impositivos da sociedade. Se o imperador Augusto, o homem mais importante do Império Romano, considerava-se um ator, a ponto de dizer como últimas palavras "Eu desempenhei bem meu papel? Então aplaudam quando eu morrer", quem seria eu para dizer-me autor da minha própria peça?
Lembro-me bem das palavras que disse ao meu pai, com dezoito anos, antes de sair de casa:
"Pai, eu me sinto como um náufrago. Minha vida neste momento não tem sentido. Tenho que deixar essa vida, porque eu vejo uma praia, e se eu não nadar até ela eu vou morrer". Naquela época, saí de casa, e tive experiências que me marcaram: fui morador de rua, lavrador, repórter político. Em suma, encontrei-me com a realidade da existência e suas agruras de ter que pedir esmola, comida, de carregar cana nas costas, de enfrentar os ofídios no meio da floresta amazônica, de ouvir os rugidos das onças quando ia dormir, etc.
No final das contas, eu não sou nada, apenas instrumento. É vaidade minha pensar em ser o autor, e não o ator. O palco estava aqui antes de minha chegada, e continuará depois. A peça já havia começado e continuará sem mim.
Pois bem, a pergunta a ser respondida está próxima de sua solução. Afinal, quem sou eu?
Não há palavras a dizer, não há gramática ou semântica para explicar o mistério. Esta palavra, mistério, que provém do verbo grego "mu", que quer dizer "silenciar", de onde vêm as palavras "místico", "mudo", esta palavra em si mesma é silêncio, e pronunciar o que significa traz à tona uma contradição intraduzível. Apenas respiro, fecho os olhos, feneço o diálogo interno, e espero.
Pois bem, me arrisco então com algo que percebi quando tinha vinte e quatro anos: eu sou a testemunha. Testemunho meu papel. Testemunho minha vida. Testemunho cada respiração. Testemunho cada momento de amor. Testemunho que, ao servir o próximo, ele não é mais o "próximo", mas eu mesmo. Testemunho que quando agradeço, na realidade agradeço a esta túnica inconsútil que tenho a oportunidade de vestir, e agradeço à vida, e agradeço a Deus.
Eu sou a testemunha. Meu corpo e minha consciência é a máscara, a persona, que é manejada pelo personagem supraconsciente (aquele que age por trás da máscara). Quando estiver como uma flauta vazia, tocarei a melodia harmonicamente. E, quem sabe, chegarei ao ponto do que se diz no "Ken Upanishad":
"Pelos desejos de quem, impelida por quem, arde a mente por seus objetos?
Impelido por quem, realiza o prana —a força vital— sua função?
Impelidos por quem falam os homens?
Que Deva, que deus, dirige os olhos e os ouvidos?"
"O Atman é o ouvido do ouvido, a mente da mente, a fala, da fala, o prana do prana, o olho do olho.Os sábios, ao separarem o Atman das funções sensoriais, elevam-se acima da vida dos sentidos e alcançam a imortalidade."
sexta-feira, novembro 06, 2020
INICIAÇÃO (Fernando Pessoa)
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
(Dedico este poema à memória de meu amado amigo e irmão, Carlos José Feital, que foi ao Oriente Eterno na data de hoje, 06 de novembro de 2020)
segunda-feira, abril 16, 2018
NENHUM HOMEM É UMA ILHA... (o que é a felicidade?)
terça-feira, março 20, 2018
Um poema antigo...
Surdamente, no fundo de um lago plácido
um vulcão espera o momento certo
de ferver e explodir:
Vê-se que a superfície não obedece
àquilo que o coração conhece
e quer expandir.
II - Dúvida
Uma barca serena, que em mim navega
toca-me sua quilha inquieta
com o vento a soprar.
Serei eu, um parvo, geografia e farol
neste imenso lago profundo
para quem quer navegar?
III - O lago, na verdade...
Extravasando-se de tudo, iluminando-me,
o Céu transmuta-se no atlas
que me há de nortear.
Superfície e fundura se casam no tempo:
No perfeito esponsal da alma
já não há o que nomear.
segunda-feira, março 27, 2017
Perfeição é possível?
Enquanto o perfeccionismo é artificial, fruto da individualidade, a perfeição se manifesta com naturalidade, transcendendo o indivíduo, trazendo com seu poder terapêutico a destruição do ego e a manifestação da glória divina.
Portanto, a perfeição só pode ser manifestada quando o ego deixa de existir (porque ele se baseia apenas e tão somente na ilusão de que "é"), quando a vontade mesquinha se torna nula e apenas resta o silêncio interior, o "pensamento firme".
É possível?
O grande trabalho da modernidade é buscar destruir a espiritualidade, trazendo dúvida a qualquer esperança que alguém possa ter de algum dia o ser humano expressar a divindade neste mundo. No entanto, quando Jesus ordena "sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito", isso demonstra a factibilidade disso.
Eis, portanto, o significado da "morte da semente".
quinta-feira, janeiro 19, 2017
MÂYÂ não é "Ilusão"
Portanto “Mâyâ” seria a “Arte Divina”, onde Brahma manifesta-se. Assim como vamos a uma exposição de arte e vemos um quadro de um pintor, e atribuímos o quadro à personalidade de um determinado artista, assim também “Mâyâ” apresenta ao homem a construção divina.
A ilusão está em considerar a “arte” não como a manifestação, mas como uma “realidade plena”, independente de um caráter superior.
Contudo, quando enxergamos que “Mâyâ” é como um mapa para se chegar ao Supremo Arquiteto, e que intuímos a fonte de onde se origina esta “arte”, então é vencida a ilusão. “Mâyâ” torna-se um “jogo” (Lyla), através do qual nos aperfeiçoamos até chegar à Divina Essência, da mesma forma que o xadrez desenvolve faculdades intelectuais que serão usadas em outras instâncias da vida.
segunda-feira, janeiro 09, 2017
A Quadra (La copla - Manuel Machado)
as quadras, quadras não são.
e quando as canta o povo
já ninguém sabe o autor.
Procure tu que tuas quadras
venham no povo chegar
ainda que deixem de ser tuas
para ser de todos os demais.
Pois, ao fundir o coração
nesta alma popular,
o que se perde de nome
ganha-se de eternidade.
terça-feira, julho 12, 2016
OS QUATRO SENTIDOS DE UM TEXTO
Os escritos podem ser entendidos e devem ser expostos principalmente em quatro sentidos. A um chama-se literal, [e este é o que não ultrapassa a letra da narrativa ficcional, como por exemplo as fábulas dos poetas. Ao outro chama-se alegórico,] e este é o que se esconde sob o manto dessas fábulas, e é uma verdade escondida sob uma bela mentira: como por exemplo quando Ovídio diz que Orfeu com sua cítara amansava as feras, e comovia as árvores e as pedras; o que significa que o homem sábio com o instrumento de sua voz amansa e humilha os corações cruéis, e comove à sua vontade aos que não têm vida de ciência e de arte; e aqueles que não têm vida racional nenhuma são quase como as pedras. (...) Na verdade os teólogos tomam esse sentido de maneira diversa dos poetas; mas como minha intenção é seguir aqui a maneira dos poetas, tomo o sentido alegórico conforme é utilizado pelos poetas.
In "Convivio", II, 1. Tradução de Roberto Mallet.
quarta-feira, maio 11, 2016
O ateu do Povoado (Edgar Lee Masters)
Da imortalidade da alma,
Eu, que me encontro aqui, fui o ateu do povoado.
Falador, contencioso, versado nos argumentos
Dos infiéis.
Mas através de uma longa doença
Tossindo até morte
Li os Upanishads e a poesia de Jesus.
E eles acenderam uma tocha da esperança e de intuição;
E a vontade da Sombra,
levando-me rapidamente através das cavernas das trevas,
Não conseguiu apagar.
Ouvi-me, oh vós que viveis nos sentidos
E pensai unicamente através dos sentidos:
A imortalidade não é uma dádiva,
A imortalidade é uma conquista;
E apenas aqueles que se esforçarem poderosamente
Conseguirão obtê-la.
ASPECTOS SIMBÓLICOS DO TRABALHO EM CANTARIA - Roger Avis
Aqueles que estudam os textos antigos percebem que a
utilização metafórica do trabalho comum, analogicamente relacionado à espiritualidade,
é algo constante nas civilizações do passado - egípcia, caldaica ou medieval,
ou por aqueles que, nos sertões mais afastados dos grandes centros urbanos,
ainda empregam aquelas técnicas artesanais tradicionais.
No Oriente, por exemplo, existia toda uma explicação
simbólica para a prática do ofício da tecelagem, onde os fios paralelos, presos
ao tear, são os influxos espirituais manifestados através das leis universais,
enquanto que os fios horizontais, adicionados ao serem tecidos, são as
atividades nos planos manifestados. Assim, simbolicamente, nossas ações,
quando levando em conta os influxos espirituais do "Grande Tecelão do
Universo"[2], só poderão ser realmente profícuas a partir do
momento em que com estas sejam harmônicas. A falha de um ponto na tecelagem
poderia deitar fora todo o trabalho.
|
Cantaria
|
Aspecto Físico
|
Aspecto Psíquico
|
|
Extirpação de hábitos extremamente danosos à
saúde: fumo e drogas.
|
Eliminação de sentimentos extremamente
grosseiros como ódio ou ira.
|
Considerar-se como um receptor, estando pronto
ao aprendizado.
|
|
Dentear
|
Aperfeiçoamento dos hábitos tendo como meta melhor saúde: alimentação.
|
Estudar os ensinamentos maçônicos, buscando
compreender e memorizar o relevante.
|
|
Cinzelar
|
Domínio de sua vida sexual.
|
Cultivo do amor fraternal.
|
Meditar sobre os ensinamentos e excluir o
supérfluo.
|
Esmerilar
|
Domínio sobre a respiração.
|
Cultivo do Amor incondicional.
|
Compreender a verdadeira natureza do Homem.
|
Polir
|
Domínio sobre todos aspectos fisiológicos.
|
Superação da individualidade.
|
Libertação dos conceitos, em busca da Suprema
Identidade.
|
NOTAS:




